Cabra-fêmea e seus demonhos


3- Dia de Oração by Cinthia Santos
fevereiro 11, 2010, 12:57 pm
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Agora nosso objetivo era chegar em Manhumirim, cidade mineira onde mora o pai do Neander, já quase na divisa com o estado do Espírito Santo. Atravessamos Cruzília e toda a sua simpatia e pegamos estrada, de asfalto, sentido Aiuruoca, andando a 80, 90 Km/h, parecia que estávamos rápidos demais depois de demorar dia e meio para atravessar 40 Km de terra. Perto de Seritinga, uma placa na beira da estrada dizia “Por amor à vida, diminua a velocidade”. Diminuí. Pensando na vida e na morte e na apelação da placa de trânsito, parecia que ela dizia “Pelo amor de Deus, não se mate”. Fiquei pensando no tamanho da crença do prefeito ou do cara do DNIT ou do Ministro dos Transportes, quem pôs a placa ali já deve ter perdido um parente naquela curva.

Chegamos em Juiz de Fora já era noite e chovia outra vez. Resolvemos dormir lá e conseguimos o contato de uma amiga, de muito anos atrás, da mãe do Neander, que poderia nos dar abrigo.Tomamos algumas cervejas num bairro periférico de Juiz de Fora, Barbosa Lage, e comemos miniporções de dois reais cada uma (de lingüiça, torresmo, mandioca…).

Neuzinha, esse era o nome da amiga da mãe do Neander, passou seu endereço para a gente pelo telefone, dizendo que podíamos dormir na casa dela. Saímos de moto ainda na chuva em direção ao bairro Santa Rita. Um morro sem fim, demos de cara com uma ladeira tão íngreme, tão íngreme que bateu todo o trauma dos últimos 40Km na terra, e aquela ladeira coberta de asfalto úmido, fazendo quase noventa graus na frente dos nossos olhos só nos fazia imaginar que o motor da moto não agüentaria e que quando sua força tivesse findando e eu pisasse no freio, a moto iria derrapar de ré até o começo da ladeira, incontrolável.

Nós dois estáticos encarando a ladeira, uma moça passava de guarda-chuva ao nosso lado, perguntamos se havia outro caminho para se chegar lá em cima. A moça apontou um caminho por fora, que contornava o morro, o caminho do ônibus.

Aliviados, demos a volta no morro, subindo, sempre subindo. Chegamos na casa de Neuzinha, ela já nos esperando escancarou o portão para que guardássemos a moto na garagem ao mesmo tempo que nos cumprimentava, extasiada. Comparava as feições do Neander às do pai dele, Luís Carlos, que conhecera ainda jovem e chamava o Neander de Luís.

Entramos na primeira casa do terreno, na casa de baixo, Neuzinha nos apresentou à sua mãe, à sua irmã, ao papai não, que ele já estava indo dormir e também já não entendia direito as coisas, por causa da idade avançada. Subimos na casa de cima, a casa de Neuzinha, lá ela ofereceu seu próprio quarto para dormirmos e também dizia que havia um quarto vazio em cima, do filho que mora no Rio, mas como ela adora visitas, sempre empresta seu quarto, para a visita se sentir mais à vontade. Preferimos ficar com o quarto de cima.

Antes de subirmos, ainda mais, em cima da casa da Neuzinha, ela nos contou a história de sua família:

Um dos filhos mora no Rio, ele tem dois empregos. O outro toca bateria na igreja batista. E tem mais um que é soldado. Este queria muito ir para a missão da ONU no Haiti, que o Brasil lidera, mantendo lá tropas do exército brasileiro.

O filho soldado de Neuzinha queria muito ir para o Haiti em nome de uma suposta missão de paz, armada, violenta, mas achava que não iria conseguir. Fez todos os exames, muitos exames físicos, exames de sangue, acabou-se descobrindo que ele era portador de anemia falciforme, anemia hereditária, comum entre africanos e seus descendentes. O marido de Neuzinha era mulado, ela falou. Mas o filho é saudável, alimenta-se bem, é bastante alto, ninguém nunca soube que ele era portador dessa anemia aí.

Neuzinha orou muito e pediu para o filho ficar calmo, que Deus resolveria tudo.

Bem, se é Deus ou a Guerra imperialista quem resolve tudo, não sabemos, mas o filho da Neuzinha acabou sendo chamado para ir ao Haiti. Houve uma desistência no final, o que lhe rendeu a vaga.

E ele vai já, em fevereiro, e volta só em agosto[1]. A mãe estava feliz por isso, talvez porque ela não conheça o Haití e tampouco saiba o que as tropas brasileiras fazem lá, em nome de uma missão de paz.

Neuzinha contou também que seu filho teve uma namorada e ela gostava demais da moça, nossa como ela gostava da moça, mas não é que os dois terminaram o namoro?, e Neuzinha chorou, chorou, chorou por uns três dias, parecia até que quem tinha terminado o namoro com a moça era ela mesma.

Depois disso, combinou com o filho que ele nunca mais poderia trazer nenhuma namorada para dentro de casa, porque depois ele termina e ela fica sofrendo. Só quando ele fosse casar, aí sim poderia levar a moça em casa.

E ele estava até demorando para chegar naquela noite e Neuzinha estava ansiosa, querendo que nós todos nos conhecêssemos. Mas ele não chegava. A mãe sabia que ele estava namorando por aí, mas tudo bem, por aí ele podia namorar, mas dentro de casa nunca mais. O filho respeitava.

Eu queria que ele pudesse namorar em casa, que assim ele poderia estar lá naquela noite para a gente perguntar para ele mesmo por que ele queria tanto ir para o Haiti.

Fomos para o quarto de cima, Neuzinha subiu com a gente, levando cobertor, lençol, fronha, papel higiênico. Mostrou fotos do filho, os filmes e livros dele. Nessa hora fomos apresentados também à tia dela, que subiu no quarto para ajudar a abrir o sofá-cama. Neuzinha ainda conectou um aparelho de telefone no cabo que saía da parede para usarmos caso quiséssemos fazer alguma ligação e, antes que pudéssemos dizer que não faríamos ligação alguma, o telefone tocou.

Era a mãe do Neander querendo saber se tínhamos encontrado a casa da Neuzinha, nesse momento a mulher, na nossa frente, ficou extasiada de novo e gritava ao telefone, virada para a parede, num vão entre a cama e o guarda-roupas, inclinava-se cada vez mais para o chão, por causa do tamanho do fio do telefone:

― Talita! Seu filho está aqui! Ele é lindo, Talita! E sua nora também! Talita!!!

O Neander ficou no telefone e eu subi com a Neuzinha na lage, em cima do quarto, para ver Juiz de Fora. Muito morro, um Cristo, um shopping redondo, avenidas esparsas.

Neuzinha desceu para sua casa.

Tomamos um banho e fomos dormir.

Prometemos acordar às seis horas, acordamos quase nove. Arrumamos nossas coisas, subimos na lage para tirar fotos e descemos à casa principal para nos despedir.

Neuzinha estava na cozinha, a todo vapor. Ofereceu café-da-manhã. Aceitamos.

O papai, que na noite anterior não nos fora apresentado, apareceu na cozinha, com a ajuda de sua esposa, a mãe de Neuzinha.

Cumprimentamo-nos. Ele já não enxergava e tinha dificuldade de se locomover. Fora soldado do exército também, em MG há muitos soldados, agora o velho tem 91 anos. Apertamos nossas mãos.

Enquanto tomávamos café, convidamos a família para uma foto. O ex-soldado, com olhar disperso, talvez por causa da cegueira, quando era chamado a olhar para a foto, fazia tanta força, tanta força, que seus olhos focavam-se dispersos num vazio fotográfico, qualquer coisa entre a imaginação do velho e o registro da máquina.

No final, a família, batista, pediu para orar pela gente. Aceitamos.

Os cinco de mãos dadas em volta da mesa, apenas o papai ex-soldado do exército ficou sentado. As duas mulheres fecharam os olhos e começaram a orar. A mãe de Neuzinha foi quem dirigiu a oração, de maneira improvisada e eloqüente resumiu nossa viagem e pediu a Deus que nos protegesse. Era bonito ouvir. Neuzinha falava junto frases mais curtas. Era um pouco confuso.

Fomos embora, rumo a Manhumirim.


[1] Essa conversa aconteceu no final de dezembro de 2009, antes do terremoto. Farei um apêndice no final da obra, sobre a situação específica do Haiti e a atuação da Minustah.


4 Comentários até o momento
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Doidera essa fita do Haiti…

Comentário por Gustavo T. Santos

droga acabou!!!!!! eu quero mais, eu quero mesmo é cantar ie ie ie

Comentário por maryjane

Tb desejei q tudo tivesse início e fim da melhor forma possível…não deixa de ser uma oração!!!!…Ótima narração. Orgulho de vc!!!!! Espero mais texto.

Comentário por Leonir

Haiti??? Não sei o que pensar…Será que somente o ambiente corrompe o homem??? O Behaviorismo diz que não, mas e as ciências sociais,dizem o q???

Comentário por Aliny




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