Cabra-fêmea e seus demonhos


O 1° dia, São Tomé das Letras by Cinthia Santos
fevereiro 11, 2010, 12:18 am
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Aparamos os pêlos, barba e cabelo. Raspei a cabeça na máquina número dois. Saímos ansiosos de Campinas, com destino a Três Corações. Fomos por Serra Negra, o que nos rendeu algumas horas a mais até a primeira parada, Ouro Fino. Preço do Prato-Feito: sete reais (para se servir a vontade!, a diferença entre o PF e o Self Sevice do Biba’s Restaurante estava no tamanho da carne e não no fato de ser PF ou self-service). Agradecemos a comida. Comida mineira em Minas Gerais. E haja comida mineira, que daqui até a Bahia é chão que não acaba mais…

E nem só chão, o céu não saiu um minuto de cima das nossas cabeças e jogava água sobre nós, reclamando a nossa presença, a nossa ousadia, de achar que Brasil é nosso quintal. Colocamos capa-de-chuva no corpo e na mochila, sacola de supermercado nos pés e passamos Borda da Mata, a cidade que “tece horizontes e borda o futuro”, é o que dizia a placa na entrada da cidade, vencendo cada gota de água em seu movimento que ia de encontro à velocidade da moto.

A chuva amenizou, a pista era de mão dupla. Três carros cruzaram conosco, um atrás do outro, o primeiro deu um sinal com o farol, não entendi por que apenas um carro deu sinal, pensei que estivesse reclamando do meu farol ligado. Logo à frente apareceu um lixão do tamanho do mundo e uma chuva, dessa vez, de urubus. O Neander pensou que o sinal seria então para tomarmos cuidado para não levarmos uma urubusada na cabeça.

Mais à frente o sinal fez sentido de fato, era mesmo para tomarmos cuidado com os urubus, mas só com dois, de farda marrom, a polícia mineira. Mandou parar, mandou partir. Estavam só urubusando mesmo. Procurando um lixo bom para continuarem existindo.

Pegamos a Fernão Dias em Pouso Alegre, vimos a chuva de frente, vimos a chuva quase de lado e comemoramos: “Vamos passar ao lado da chuva!”. Mas a chuva que não é besta nem nada, reclamando a nossa presença, a nossa ousadia, de achar que Brasil é nosso quintal, molhou mais um pouco a gente, dessa vez sutilmente, talvez porque a chuva só chova, não reclama e só molha asfalto porque o asfalto está lá, e só molha a gente e a gente sente porque a gente está viva. E se a gente está viva a gente vai para o Maranhão de moto e sente a chuva, e sente o resto. O Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro, falta o resto.

Paramos em Três Corações, na dúvida entre passar ou não a noite em São Tomé das Letras tomamos algumas cervejas e olhamos o mapa. O problema está no tamanho das coisas, pode-se ir ao nordeste de avião, Viagens Costa, lanche de presunto e queijo a bordo, um Club Social ou uma barra de cereal, passa-se lá uma semana, passeios prontos, itinerários que mostram como o Brasil é bonito, paga-se em dez ou doze vezes, para ficar ainda um ano lembrando como o Brasil é bonito mesmo. Ou pode-se ir ao nordeste de caminhão, de carro, de moto, de bicicleta, a pé. E a gente se relaciona com as coisas de acordo com a maneira como passamos por elas.

Nós estamos indo de moto.

Resolvemos dormir em São Tomé, acampar num buraco qualquer e de manhã, em vez de voltar para a Fernão Dias, seguiríamos em frente, por uma estrada de terra que vai até Cruzília. Mas a chuva que molha o asfalto porque ele está em cima da terra e molha a gente porque a gente está em cima do asfalto, caiu torrencial. As capas-de-chuva não deram conta, do céu caía águas e raios, do chão não se via nada e seguíamos em frente mesmo assim. Chegamos em São Tomé encharcados por dentro, por fora, mochila molhada, roupas, redes, sacos-de-dormir. Preferimos então um camping a um buraco qualquer, oito reais por pessoa a diária do camping, e recepção com licor de figo caseiro. Banho quente e um varalzinho improvisado. Pegamos o que estava menos molhado e barraca e fomos dormir, esquentando nossos corpos um no outro.


1 Comentário até o momento
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flor do cerrado! do cerrado e não do campo… o cerrado é um ambiente que poucos notam e apreciam; provavelmente por não saberem de sua complexidade na interação entre matas e campos, antítese que se interagem para diminuir a competição, o oposto das relações estabelecidas por mulheres e homens civilizados que nem se sentem mais parte nesta natureza e destas lógicas naturais. No cerrado há “desejo” de vida pois se resiste a “morte”, os seres que lá habitam, muitas vezes, parecem mortos mas continuam vivos apenas esperando a hora certa de apreciar a vida.
Cinthiazinha, flor do cerrado, admiro sua ganância pelo que realmente vale a pena e, obviamente, que ainda me agrada esta certa agressividade em sua escrita. Carpe Diem!

Comentário por Tamie Hammermeister Nezu




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