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Choveu a noite toda, a barraca agüentou bem. Algumas coisas que deixamos no varal improvisado molharam mais ainda, as outras simplesmente não secaram. Durante toda a manhã a chuva ainda não havia cessado e começamos a nos sentir ilhados em São Tomé. No começo da tarde saímos do camping para almoçar e acessar a internet. A previsão do tempo acusava chuva, 90% de possibilidade de chuva em todo o sudeste para as próximas duas semanas, pelo menos.
Começamos a nos preocupar com a nossa partida. Sairíamos de São Tomé por uma estrada de terra, de 40 Km,que vai até Cruzília. Mas como estava tudo muito molhado, pensamos que a estrada de terra poderia estar intransitável.
Enquanto o Neander ainda usava a internet, eu saí para ver se alguém conhecia a tal estrada, apontaram-me um nativo que se apresentou como Tomé, ele era nascido em Cruzília na verdade, e quando era jovem costumava fazer esse trajeto de moto sem nem se importar com a chuva, mas ponderou que hoje não faria mais isso não e concluiu: mas dá pra ir sim, vai devagar.
Pronto. Agora eu já queria pegar estrada de terra de moto na chuva. O Neander ainda estava desconfiado.
Voltando para o camping, passamos por um brechó, aproveitei para ver se tinha uma calça que me servisse, já que a minha estava molhada e pretendíamos partir, de alguma maneira. Os donos do brechó, um homem e uma mulher, também nos falaram sobre a estrada, e no meio de um monte de dúvidas, o homem achou que dava para ir, a mulher continuou achando que não, era muito perigoso. Uma calça me caiu bem, dez reais.
No camping havia um velho sentado na cozinha. Chamava-se Tião Madô:
― O senhor conhece a estrada que vai para Cruzília?
― Ah, conheço.
― Dá pra pegar ela de moto nessa chuva?
― Ah, de moto dá.
Conversa vai, conversa vem, Tião Madô reclamou da vida, das goteiras da sua casa. Dizia que eram muitas e que não agüentava ficar sozinho naquela casa cheia de goteiras. Eu falei que ele não ficava sozinho, pois tinha as goteiras para acompanhar, e eram muitas. Tião Madô riu e contou ainda que até pretendia alugar sua casa para temporada no Ano Novo, mas que com todas aquelas goteiras ele sentia até vergonha e também para ter que devolver o dinheiro no final, porque a pessoa ia reclamar das goteiras, né, era melhor nem alugar nada mesmo. Tião Madô era uma estrela, reclamava e ria da vida, dava show.
Quando ele se sentiu à vontade no meio da nossa conversa, começou a descrever o trajeto de terra de maneira catastrófica. Dizia que não dava para ir, que ninguém estava pegando aquela estrada nos últimos dois dias e quem era de Cruzília estava preferindo dar a volta por Três Corações. E assim devíamos também fazer.
― Mais vale uma volta bem dada do que um ataio mal ataiado.
Tião Madô disse que a gente ia lembrar desse aviso e disse ainda que a estrada estaria cheia de buracos, que a moto nessas horas quebra e que se a gente ainda fosse naquele dia, a gente iria passar a noite na estrada, porque quando cai a noite, vira um breu que não se vê mais nada.
No meio das profecias do Tião Madô, eu perguntei por que, antes, logo de cara ele falou que de moto dava para ir e depois jogava tanto terror em ir de moto pela estrada de terra molhada lá pelas cinco horas da tarde.
Tião Madô respondeu, reflexivo:
― É porque depois eu raciocinei.
― Mas Tião Madô, dá ou não dá pra ir?
― Ah, dá. Só que vocês vão chegar amanhã ou depois de amanhã. E eu torço pra que vocês cheguem bem. (ria)
Fomos. Na boca da estrada perguntamos a um menino se o caminho era por ali mesmo e se dava para ir de moto, nessa hora apareceu um homem que estava junto com o menino oferecendo pousadas para turistas perdidos. O menino falou, com ar de negação, que a estrada estava uma lama só, o homem cortou o menino, imperativo, dá pra ir sim!
Fomos.
A chuva tinha diminuído. Havia carros vindo de encontro à gente na estrada. Parecia que ia ser difícil o percurso, mas que dava para seguir adiante. E era só isso que queríamos, seguir adiante.
Seguimos.
Ainda no começo, caímos. Estamos indo com uma Strada, 200 cc da Honda, nada apropriada para terra, o peso da moto está maior atrás, o Neander e uma mochila com todas as nossas coisas, a nossa casa. A derrapada foi inevitável, ninguém se machucou, mas o manete da embreagem quebrou (ê, Tião Madô). A sorte foi que o cabo não soltou e ainda dava para usar a embreagem se eu não soltasse nunca o manete, segurando-o sempre na posição dele.
Continuamos.
Agora mais cuidadosos, o Neander descia várias vezes da moto e ia a pé algum trecho para evitar outra queda. E fomos assim por mais alguns quilômetros. Começou a escurecer e já não dava para ver direito o chão (ê, Tião Madô), caímos de novo, dessa vez queimei a perna, resolvemos parar e acampar. Abrimos uma porteira e fomos montar a barraca. O Neander quis usar o farol da moto para a gente se ajeitar melhor. Enquanto mirávamos o farol onde montaríamos a barraca, esquecemos de ligar o motor da moto e a bateria acabou (ê, Tião Madô).
Desistimos da moto e montamos a barraca no breu da noite só com a ajuda de uma pequena lanterna. Barraca montada no meio do pasto, boi mugindo ao nosso lado, acabamos dormindo na estrada (ê, Tião Madô).
Dormimos bem, a barraca de novo agüentou bem a chuva da madrugada. Levantamos as sete da manhã, arrumamos as coisas e tentamos ligar a moto. Não ligou. Demos um tranco nela, na lama, com o manete da embreagem quebrado. Agora faltavam uns 15Km para chegar em Cruzília. Seguimos viagem, dessa vez ainda mais cautelosos, o Neander fez grande parte do percurso a pé, levando a mochila nas costas.
Encontramos pessoas no caminho e já não chovia. Na beira da estrada dois homens, uma mulher e um filhote de cachorra perguntaram-nos de onde a gente vinha.
― De São Tomé.
― E como tá a estrada lá pra trás?
Explicamos que estava bem ruim ontem, mas que hoje já deveria estar melhor porque a chuva havia amenizado. Percebi que um dos homens, sem entender, demonstrou-se curioso. Expliquei que estávamos naquela estrada desde o dia anterior, que caímos duas vezes de moto e que a noite veio quando ainda nos faltava andar 15 Km, por isso resolvemos, então, dormir na estrada.
O homem riu.
Daí, expliquei que tínhamos barraca, que deu para dormir.
O homem riu de novo. E perguntou se estava passando caminhão por ali. Dissemos que sim, que ouvimos barulho de caminhão bem cedinho.
― Bem cedinho que horas?
― Umas seis da manhã.
― Seis da manhã? Ah, então era ônibus, que a gente tá aqui desde às seis da manhã e não passou nenhum caminhão. Já segui tudo os rastros dos pneus. Só passou ônibus.
Fomos embora deixando para lá a conversa, um pouco mais à frente encontramos uma venda. Pedimos uma água e um pacote de bolacha. Conversando com o dono da venda, contamos outra vez o que tínhamos passado desde a noite anterior. O homem falou que devíamos ter continuado, pelo menos até o bar dele, pois poderíamos acampar ali, embaixo da cobertura. Agradecemos a gentileza. Ele falou também que aquela estrada na chuva derruba mesmo, ele que tem uma moto pra terra e que está acostumado, outro dia mesmo, deitou com a moto também.
Despedimo-nos. E o dono do bar ainda nos tranqüilizou:
― Daqui pra frente a estrada é melhor.
E foi.
Chegamos em Cruzília por volta de dez horas da manhã e com o Tião Madô na cabeça:
“Por que é que ele não avisou?”
Enlameados da cabeça aos pés, demos logo de cara com uma mecânica de motos, trocamos o manete da embreagem e ajustamos a corrente da moto. Procuramos também um borracheiro para tapar o vazamento dos pneus, que estavam vazando, bem devagar, mas vazando, desde Campinas. Ao lado do borracheiro havia um posto de gasolina. Pedimos para tomar banho, disseram que tudo bem. Depois pedimos para estender as roupas molhadas, tudo bem. Vimos que meninos lavavam suas bicicletas no lava-rápido do posto e que homens lavavam seus carros e motos. Perguntamos se era de graça. Sim. Lavamos então a moto, nossos sapatos e as capas-de-chuva enquanto as outras roupas secavam.
O Neander foi buscar dinheiro e comida. Almoçamos marmita também no posto. E Cruzília foi o nosso porto seguro.
― Mas, Tião Madô, dá ou não dá pra ir?
― Ah, dá. Só que vocês vão chegar amanhã ou depois de amanhã. E eu torço pra que vocês cheguem bem.
Torceu.
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4 Comentários até o momento
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nossa nem o sapinho se safou da lama!!!!! viajem louca só para loucos uhauhuh
Comentário por maryjane fevereiro 11, 2010 @ 6:28 pmProfecías de Nóstradamus e Tião Madô para a venda em almanaque!!! Rs
Comentário por Aliny fevereiro 16, 2010 @ 11:58 amMoral da história: Nunca subestimem os conterrâneos!
Vc continua ansiosa… Bju
Agora eu to lendo seu blog!
Comentário por Thiago fevereiro 21, 2010 @ 6:33 pmComecei hoje! Mas tá legal… To ansioso pra ler a próxima história!
Putz, Muito massa esse projeto de vcs.
Comentário por Sérgio de Souza março 1, 2010 @ 11:15 pmA motinha é guerreira.
Abraços