Cabra-fêmea e seus demonhos


4- Cocaína by Cinthia Santos
fevereiro 14, 2010, 1:27 pm
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Chegamos em Manhumirim na véspera da véspera do Ano Novo. No caminho, outra placa cristã “Acredite na sinalização”. Saímos da Rio-Bahia em Fervedouro, passamos pela região de Alto Caparaó, do Pico da Bandeira. Paisagem exuberante. As montanhas. Cidadezinhas pacatas, Carangola, distritos mais pacatos ainda, Alvorada, cem metros de rua principal, uma praça, casas com janelas que dão direto para a rua, rua com muitas lombadas e cachorros serenos serenando.

Assim que paramos a moto em Manhumirim, um homem veio até nós oferecer cocaína. Manhumirim, quinze mil habitantes. O homem queria vender por 15 reais. Não compramos.

Encontramos o pai do Neander num restaurante, conversamos e tomamos cervejas. A chuva ainda ameaçava cair forte. Não caiu, desabou. Como tem água no céu no verão tropical atlântico-sul. Incrível.

Esperamos a chuva passar e fomos ver o quarto que o pai do Neander arrumou para a gente. Num prédio novo e vazio de três andares, um quarto na cobertura. Cama, vitrola, vinis, cd’s, livros, revistas, gibis. Ficamos bem.

Comida boa da Elis, esposa do pai do Neander. Um sono sem fim. Comemos, dormimos.

Já era véspera de Ano Novo e queríamos pegar estrada, a fim de encontrar, perto da meia-noite, uma cidade pacata que gostasse de ser pacata. Manhumirim estava estranha. Cidade pacata com pretensão de ser cidade grande, no final era tudo cafona demais. E a chuva não deu trela. Nem a preguiça.

E fomos ficando. Almoçando de novo a comida da Elis. Quando chegamos no apartamento deles, deixei minha pochete no sofá. Almoçamos, usamos a internet, escrevi um pouco, conversamos bastante. Na hora de ir embora tirar um cochilo no quarto que nos estava servindo de abrigo no prédio vazio, fui pegar minha pochete em cima do sofá e vi um pacote de cocaína caído ao lado dela, aberto, meio esparramado. Arregalei os olhos, tentei me comunicar com o Neander, não consegui. Entre deixar lá o pacote e fingir que não o ví ou alarmar todo mundo ou pegar e guarda-lo comigo… Peguei… E assoprei o que, esparramado, insistia em ficar lá.

Coloquei o pacote na pochete e enquanto descíamos as escadas, descrevi a cena para o Neander. Não deu para conversar, o pai dele descia logo atrás, só deu tempo de o Neander me garantir que não era dele.

Passamos no mirante da cidade antes de irmos para o quarto, e lá deu pra ver que em Manhumirim, 15 mil habitantes, também tem favela. Fotos e enigmas. De quem era a farinha?

Do pai do Neander? Da sua esposa, a Elis? Da irmã da Elis que também passou por ali nos últimos dias?

O pai do Neander deixou a gente no prédio vazio e foi embora. Dissemos que pegaríamos estrada no mesmo dia, 31, porque não queríamos passar o Ano Novo parados.

Dormimos.

Acordamos as dez da noite, resolvemos voltar ao apartamento deles para desejar feliz Ano Novo, pelo menos. Tomamos champanhe, vimos os fogos pela janela do apartamento e, no meio disso:

― É… tinha um pacotinho aqui em casa… com um pó branco dentro… que eu e a Elis achamos na escada do prédio e não sabíamos o que era, droga, giz…e queríamos mostrar pra vocês verem o que é. Mas ele sumiu. Eu já procurei em todo canto da casa e não encontrei. Por acaso vocês pegaram?

O Neander riu primeiro, eu ri depois. Expliquei que fui eu quem peguei, porque dei de cara com o negócio e não soube o que fazer, vai que o Neander tivesse comprado quando o homem ofereceu, eu vi que ele não tinha comprado, mas vai saber e, no final, fosse de quem fosse, achei que fiz uma boa ação livrando o B.O de alguém.

No final todos chegamos à conclusão de que a droga era de uns vizinhos que, descuidados, deixaram cair na escada do prédio. E sabem quem achou de verdade? A Mel, a cachorrinha deles, yorkshire-mini, quase do tamanho do saco de pó. Ainda bem que ela não comeu, só cheirou.
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3 Comentários até o momento
Deixe um comentário

Eu disse não não não não
Eu já parei de ‘hunfz
Cansei de acordar pelo chão
Muito obrigado eu já estou calejado
Não quero mais andar na contra-mão

Comentário por Aliny

Emboscada!?!?!?!?!?!?

Comentário por Leonir

Afinal, o pó era bom? Valeu segurar o B.O?
E a cacharrinha ficou estriquinada?

Comentário por Diogo




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