Cabra-fêmea e seus demonhos


5- De volta à estrada by Cinthia Santos
fevereiro 14, 2010, 10:53 pm
Filed under: Uncategorized

Pegamos de novo a Rio-Bahia, agora com destino à Vitória da Conquista-BA, onde viraríamos à esquerda, para chegar em Lençóis, na Chapada Diamantina.

Andamos bem, 300Km, e saímos tarde de Manhumirim, lá pelas onze horas da manhã, só paramos mesmo de dirigir em Campanário, depois de Governador Valadares, a cidade das bicicletas coloridas. Lá as bicicletas parecem todas iguais, com aquele quadro mais baixo, garupa atrás, guidom alto. Mas as cores, as cores são o que as diferenciam. Vimos a bicicleta mais bonita do mundo passando bem ao nosso lado, verde e roxa, enquanto tomávamos água num bar em uma periferia que beira a rodovia, quando Governador Valadares quase acaba.

Aqui as pessoas começaram a estranhar a gente. Mais para o norte de Minas, Campinas não é tão perto. Fora isso, pelas estradas e pelas beiras das estradas, que são os lugares por onde temos passado, a nossa estética também destoa e as pessoas olham, umas olham apenas curiosas, outras se incomodam. As crianças? As crianças riem.

Ainda nesse último bar, numa mesa ao lado da nossa havia duas pessoas, um homem e uma mulher, o homem parecia ser travesti, apesar de não estar travestido, ele tinha os cabelos bem lisos e bem pretos e bem compridos, parecendo alisados e tingidos, seu rosto era composto de traços mais parecidos com os traços dos rostos de mulheres, não sei se era maquiagem ou hormônio que se toma ou se o rosto dele sempre fora daquele jeito. Bem, este homem interagia o tempo todo com a gente, falava de maneira espalhafatosa focando o olhar na nossa direção, perguntava, sem esperar resposta, se éramos gringos e falava outras coisas que não conseguíamos entender. A mulher que estava sentada na mesa junto com ele começou a se incomodar e até virou sua cadeira para olhar a gente fixamente com cara de má, o Neander ouviu ela me chamando de sapatão, em tom ofensivo. Ainda bem que não achamos uma ofensa a orientação sexual das pessoas. Assim o assunto acabou ali mesmo.

Os dois foram embora, nós continuamos sentados. Depois de algum tempo uma mulher que estava sentada numa mureta junto à dona do bar levantou-se e veio em nossa direção. Ela estava arrumada como quem freqüenta alguma igreja evangélica pentecostal, ou vestida como crente, numa denominação mais popular. Ela chegou até nós, apertou nossas mãos e desejou tudo o que de bom poderia nos desejar, em nome de Deus, porque estávamos ali bem sossegados. Ela deve ter visto o comportamento da outra mulher que me chamou de sapatão, procurando briga. Deus e o Diabo na beira da estrada.

Andamos ainda alguns quilômetros e resolvemos dormir em Campanário. Paramos num bar, tomamos cervejas e perguntamos onde dava para acampar por ali. Indicaram o campo de futebol da cidade. Perguntamos, então, se seria tranqüilo acampar no campo de futebol da cidade, disseram que a cidade é bem tranqüila, não há furtos.

Na frente do bar havia uma pousada, na frente da pousada tinha um mulher, estriquinada, convencendo as pessoas que passavam de carro na lombada a passarem uma noite lá. Nós preferimos acampar no campo de futebol a pagar 40 reais. Mas aceitamos pagar 10 reais cada um por um jantar à vontade, com banana-da-terra cozida com casca e um banho quente.

Fui a primeira a subir para tomar banho, a mesma mulher que ficava louca na frente da pousada atrás de cliente, levou-me até um quarto de hóspede para tomar banho no banheiro do quarto. Tranquei a porta e já quase no final do banho a luz acabou de uma vez, consegui terminar tudo com água gelada e escuro. O tato funcionou bem. A única coisa que deu errado foi que eu lavei a calcinha limpa ao invés da suja. Depois lavei a outra e fiquei sem calcinha mesmo até de manhã.

O Neander tomou o banho inteiro gelado com luz de vela. Uma família quis ir embora da pousada, mas não é que a mulher alucinada buzinou tanto na orelha de um deles que eles acabaram aceitando ficar, com a promessa de que a luz voltaria logo e eles dormiriam com TV e ventilador e poderiam ir tomando banho porque os chuveiros eram aquecidos com energia solar. O nosso não era. A família ficou.

Fomos armar a barraca no campo de futebol, a noite foi boa, tirando que, ainda quando estávamos procurando um lugar para montar nossa casa, escolhemos um mato que parecia agradável, o Neander nem tinha tirado a mochila das costas e eu tentava parar a moto sobre o pezinho dela, mas não encontrava equilíbrio no mato fofo, de repente senti umas picadas muito doloridas no pé (eu estava de chinelos) e o Neander começou a sentir uma ferroada que lhe doía cada vez mais, eu tomando várias picadas, não sabia se largava a moto e tirava os bichos do meu pé, ou se tentava tirar logo a moto dali agüentando toda a dor, no desespero, não fiz uma coisa nem outra, gritei para o Neander segurar a moto, ele veio me acudir, suportando a saúva que lhe tirava sangue, enquanto eu retirava uma meia-dúzia de saúvas do meu pé.  No final, mudamos de lugar e dormimos bem ao som de alguns passarinhos noturnos e acordamos com outros cantos, de outros tantos passarinhos.

Acordamos cedo. Já tinha gente no campo, um senhor carregando mudas, algumas crianças conversando, ninguém se importou com a nossa presença.

Pegamos a Rio-Bahia de novo, ainda sentido Vitória da Conquista. Minas Gerais é mesmo interminável.


3 Comentários até o momento
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um olhar [mesmo] na multidão. Talvez o único da noite.
fixo, corajoso, curisos, calmo, sincero,

li tudo, só de curiosidade,
como alguém que guarda alguma coisa consigo e deseja devolver. ganhei duas vezes!

te mando os trechos que sao legais sobre o poema que te falei, sobre a luz e a ausencia dele.

“estive pensando no escuro, só quando nele nos escontramos podemos entender o que lá se passa,”
“e logo o escuro nao é tão escuro, acostumam- se os olhos…”
“às vezes precisamos do escuro para enxergar a luz!”

quarta feira de cinzas…
é nóis!

Comentário por ramon

estou ansioso pela próxima página desse épico de aventuras,chuvas,saúvas,reencontros,descobertas e até uma deslumbrante virada no trama propiciado pelo papel de cocaína implantado na cena pela diabólica CIA!

Comentário por niér

Podia ter cheirado a calcinha…

Comentário por Thiago




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