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A estrada começou a ficar perigosa, carros e caminhões vinham na contra-mão tentando ultrapassagem, mesmo com faixa contínua, mesmo com a gente andando no nosso lado da pista, muitas vezes fomos obrigados a sair pelo acostamento. Na Rio-Bahia ainda em MG a pista começou a ter apenas duas faixas, uma que vai e outra que vem e de vez em quando aparecia uma faixa auxiliar.

O trânsito reflete bem o espírito do homem moderno: o ódio, o egoísmo, a pressa, a competitividade.
Todo mundo fica o tempo todo se ultrapassando. Sem parar. Moto com menos de 350 cilindradas não existe nas estradas, passam ao lado da gente, em alta velocidade, dividindo a mesma faixa, sem nem se deixarem ser vistos no retrovisor da moto. E às vezes somos obrigados a passar em buracos, sem poder desviar, porque ficamos espremidos entre o carro de um idiota e a faixa do acostamento.
Um caminhão desceu uma curva muito rápido ocupando um pouco da faixa dele e mais da metade da nossa, a velocidade era tanta que ele nem conseguia fazer a curva direito. Tomei um susto. E demorei para reagir. Acho que não conseguia acreditar naquela cena. Mas quando percebi que era real e que já estava acontecendo, apenas fiz a curva ao lado dele, no pequeno espaço que me sobrou para isso. Fui fazendo a curva, pensando na morte e achando que não conseguiria mantê-la até o final do caminhão, que eu nunca completaria aquela curva, fechada, veloz e apertada.
Saímos vivos do outro lado. Eu, trêmula. Seguimos viajando.
Depois desse caminhão, vários carros que tentavam se ultrapassar usavam a faixa da contra-mão enquanto estávamos passando, empurrando-nos para o acostamento.
Isso começou a ficar tão comum, que eu achei que iria at
é o Maranhão de moto pelo acostamento. Alguns carros ainda vinham dando farol alto, dizendo mesmo para a gente sair da frente que eles estavam passando na contra-mão. Quando eu sentia que a gente poderia morrer, saía. Quando o trânsito estava mais intenso e as velocidades mais calmas, eu não saía não. Buzinava, mostrava o dedo-do-meio, obrigando o idiota a voltar à sua faixa e esperar. Tem que aprender a esperar, criança aprende. O cara cresce e fica bobo? Fica. E compra um carro.
Na verdade, estávamos todos no mesmo jogo, com sangue nos olhos, odiosos, apressados, com o ego lá no alto, numa competição que só leva todo mundo, o campeão da pista e os outros, para o mesmo lugar onde já se ia, só que a gente chega vivo ou morto. É essa a diferença. E dá para ver quem é que se morre na estrada, o problema é que quem morre também mata. Então, temos que tomar muito cuidado se quisermos chegar ao Maranhão, e tomarmos mais cuidado ainda se quisermos voltar do MA. (Tomamos).
Em Vitória da Conquista perguntamos como fazíamos para chegar em Lençóis-BA, indicaram-nos pegar a BR-030, que vai para Caetité. O Guia 4 Rodas já indicava que a ro
dovia estaria precária, as pessoas alertaram “muito buraco, vão devagar”. Iríamos até Anagé, onde viraríamos para a direita, sentido Tanhaçu, Ituaçu, dessa maneira pegaríamos apenas 45 Km da rodovia esburacada.
Quando chegamos na BR-030 não acreditamos, era muito buraco, tinha mais buraco do que asfalto. Pista para equilibrista. A rodovia era repleta de placas dizendo para andar no máximo a 60Km/h porque havia obras na pista. Não vimos nenhuma obra ne
m nada que indicasse que aquilo havia sido reformado nos últimos anos. Era a clara visão do abandono, e o DNIT mandando ir a 60Km/h para se livrar do presunto e culpar apenas o indivíduo por sua própria morte. Amém.
De Anagé até Tanhuaçu a pista melhorou. Depois piorou de novo. Nessa pista não havia buracos, mas era tanto remendo, tanto remendo, que a moto só trepidava, nossos membros coçavam, formigavam, de sentir o sangue chacoalhando no corpo. Um monte de remendo mal feito, antes terra do que asfalto torto, pelo menos a terra é mais maleável e se assenta sozinha, o asfalto quem assenta é o homem, e assenta de acordo com quem passa por ali ou com o quanto de lucro a pista dá para a concessionária. O governo lava mesmo suas mãos.
Em Ituaçu, onde a pista é toda torta, os patrões se deslocam é de avião. Existe uma pista de pouso lá, que recebe aviões de pequeno porte.
Conhecemos o gerente desse pequeno aeroporto, ele se apresentou como João Carlos de Oliveira da Silva. No meio da apresentação ele ainda me ofereceu um cartão, o cartão do Controlador Geral do Município, pedindo para eu riscar o nome do Controlador e escrever o seu. E esse era o cartão do João Carlos de Oliveira da Silva.
Encontramos o João Carlos num bar, estávamos passando de moto por Ituaçu querendo chegar em Barra da Estiva, mas de uma hora para outra começou a cair uma chuva ameaçadora, paramos a moto às pressas e entramos num bar, que ficava bem em frente ao pequeno aeroporto. Muita chuva e muito vento. Pela porta do bar, admirávamos o tempo, chocados e aliviados. Nivaldo, o dono do bar disse que já fazia um ano que não chovia tanto assim naquela região.
João Carlos de Oliveira da Silva, gerente do aeroporto Ituaçu-Bahia, estava nesse bar, carregando sua massa grande e negra, com todo o
álcool que corria pelo seu sangue tipicamente vermelho de quem nasce em Ituaçu, terra de Moraes Moreira e Gilberto Gil, orgulhavam-se disso os homens de lá.
O negão estava muito louco, como diziam os outros homens do bar. João começou a ficar nervoso com os comentários e pediu um conhaque com gelo e limão e sonrisal para aliviar, e talvez efervescer e evitar os distúrbios gástricos do dia seguinte. O Nivaldo não queria servir conhaque ao João, mas o segundo insistiu tanto que o primeiro cedeu.
Nivaldo sempre tentava explicar que João Carlos era homem muito respeitável, mas que estava alcoolizado ali. Dizia que era somente o João quem guiava qualquer caminhoneiro que nunca tivesse passado por Ituaçu e quisesse encontrar qualquer lugar. E contava que uma vez teve um amistoso do Brasil no Rio de Janeiro e os “bam-bam-bam” da cidade alugaram um ônibus para eles irem ver o jogo no estádio. João queria ir também, mas os outros não queriam deixar.
― Que você sabe como essa gente é.
Mas o João encheu tanto o saco que acabou indo. E o negão, sem todos os dentes na boca, foi no ônibus junto com os empresários e políticos da região, até o prefeito estava nesse ônibus.
Só que no caminho houve um acidente terrível.
E sabem quem foi o único que não se machucou?
O João Carlos de Oliveira da Silva.
E ele salvou muitas vidas. Salvou a vida de quase todo mundo ali.
A chuva passou, resolvemos ir embora do bar, a contragosto do João, que queria que dormíssemos em Ituaçu e queria também pagar nossa cerveja. O Nivaldo interveio dizendo ao João que deixasse a gente pagar nossa cerveja, porque depois ele iria pendurar a conta. E essa conversa deu numa briga só, porque o gerente do aeroporto queria muito fazer a gentileza, mas sempre pagava depois. E o Nivaldo pendurava a conta dele numa boa. Mas a simpatia do negão de “pagar” para quem é de fora, ia dar muito prejuízo e então o dono do bar insistia para que a gente pagasse, enquanto o João dizia que era para pôr na conta dele. A gente pagou no final.
O João ficou bravo e foi lá fora, onde não havia mais chuva. Mas a lama ficara lá. E o João caiu na lama, caiu bonito, de chinelos
Havaianas, reclamando da terra molhada, disfarçava a bebedeira.
Fomos embora dando risada e nos despedindo de todos, do Nivaldo na porta do bar e do João se lavando na mangueira, ainda insistindo para que esperássemos um pouco, porque ele queria nos mostrar um atalho para chegar em Barra da Estiva. Preferimos a pista.
Se Tião Madô já dizia:
“― Mais vale uma volta bem dada do que um ataio mal ataiado.”
O que diria do atalho embriagado?
3 Comentários até o momento
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Pois é… quem ficou aqui “de fora”, torcendo por vocês, pensava: tomara que voltem… VIVOS!!! E voltaram.
Comentário por Heringer fevereiro 20, 2010 @ 10:59 am“Porque sou vivo
Comentário por Andreia Destefani fevereiro 25, 2010 @ 12:29 amSou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo…”
É???
Coisa de uns tais Neanderthais…
Essa tal viagem de moto até o mato.
Mato???
Mato-moto-morto-morro.
Vivos esses tais…
Vivem esses tais!
De grandes riquezas culturais!
Basta observar seus funerais…
Neander. Novo.
De-novo.
Queremos mais!
Andreia.
Doidera esse tiozinho.
Comentário por Gustavo T. Santos março 2, 2010 @ 8:54 pmEu havia andado por essa região uns dias antes de vocês e realmente a estrada é uma bosta.
Mas estava de carro. De moto deve ser bem mais tenso.