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Chegamos em Barra da Estiva sob chuva. Noss
a idéia era acampar no Poço Encantado-Chapada Diamantina, só porque lemos esse nome no mapa. Paramos numa pizzaria, pedimos uma pizza e ficamos recolhendo informações sobre o tal poço.
A garçonete disse que o Poço estava interditado, mas que a gente deveria ir até Mucugê e se informar melhor lá. Perguntei quais eram as condições da estrada que pegaríamos, já que a noite começava a cair. O namorado da garçonete respondeu dizendo que a estrada era muito boa, apenas 86 Km , apesar de ter muita subida, era só a gente ir devagar, completou.
Depois os dois, a garçonete e seu namorado, recomendaram que ficássemos em Barra da Estiva mesmo, partindo pela manhã. Falei que pretendíamos acampar, pois não tínhamos dinheiro para hotel nem pousada. Então eles disseram para irmos mesmo a Mucugê, porque lá teria até camping.
Pegamos a estrada, que começou esburacada. E o escuro da noite tão escura sem nenhuma iluminação na pista, além do farol da moto, fez a gente desistir de ir a Mucugê à noite.
Começamos a procurar um lugar para acampar na beira da estrada, mas quase nenhum lugar agradava, porque não enxergávamos direito, até que achamos uma estrada de terra saindo do asfalto, nessa estrada, a uns cinqüenta metros da pista havia uma escola pública e a cem metros da escola havia uma casa iluminada com barulho de conversa e risada.
Achamos aquele lugar um pouco seguro, parecia estar acontecendo uma festa numa casa próxima, pensei numa festa de família, as pessoas não dormiriam cedo e se acontecesse qualquer coisa com a gente naquele lugar escuro e desconhecido alguém poderia ouvir ou ver.
Montamos a barraca ao lado da escola. De repente começamos a perceber uma movimentação aos arredores. Muitas motos passavam. Da estradinha que ia da escola à casa acesa, passavam muitas motos e as pessoas que estavam em cima delas gritavam, divertindo-se. E gritaram assim:
― Uhuuuuu! Uma barracaaaa!
Daí, começamos a nos preocupar. Ainda não tínhamos terminado de montar a barraca, apareceu uma moto, incomunicável, cercando ela e a gente, o Neander chamou quem estava na moto, querendo conversar, a moto foi embora, silenciosa. Terminamos de nos preocupar e tivemos, então, a idéia de ir até a casa iluminada perguntar qualquer coisa sobre o lugar onde a gente iria dormir e avisar que estávamos acampando por ali.
O Neander foi e eu fiquei tomando conta da barraca. Cansada e com medo, fechei-me na barraca apenas esperando ele voltar. Foi a pior coisa que fiz, uma barraca pequena, fechada, sensível. O medo. Entrei em desespero lá dentro, ouvia passos cercando a barraca, enquanto ficava deitada, imóvel, quadrada, querendo desvendar que os barulhos de passos que eu ouvia não eram passos, mas uma mariposa entre a parte interna e a capa da barraca ou a própria capa da barraca balançando ao vento ou ainda folhas voando. E era um barulho atrás do outro e as descobertas não se sustentavam e meu coração batia mais forte do que uma britadeira quebrando asfalto, então eu abri o zíper da barraca de uma vez e pus a cabeça para fora, com toda a coragem que o medo me dava. Não havia nada, não tinha ninguém. Olhei as estrelas e vi, talvez, o céu mais estrelado da minha vida. Continuei nesta posição, corpo dentro da barraca, sentada, cabeça para fora, observando o céu tão escuro e tão iluminado e pensando como fui estúpida de me fechar na barraca com medo, é como esperar tomar um tiro pelas costas, não dá, a gente prefere olhar. O Neander chegou assustado, mas com calma falou que a casa era na verdade um bar, repleto de motos estacionadas no quintal, uns quatros bêbados caídos na varanda e dentro, numa sala muito pequena, com apenas um balcão e uma geladeira, mais um monte de homens mal-encarados sentados espremidos em bancos que circundavam toda a pequena sala, e ele disse que entrou no bar e cumprimentou um a um e todos respondiam apenas “oi”. Ele explicou ao dono do bar que estávamos acampando e o homem respondeu apenas que “podia”.
Chegamos naquele lugar à noite, não conseguimos enxergar muita coisa, montamos a barraca com o auxílio do farol da moto, chamando a atenção daquelas pessoas que gritaram de longe. Acabamos deixando a bateria da moto acabar de novo, parece que ela não agüenta um segundo se o motor não estiver ligado. Mas o maior erro foi devido ao fato de não termos estabelecido qualquer tipo de comunicação no local, achamos que estávamos num bairro rural e só depois percebemos que o lugar era, na verdade, um bairro periférico de Barra da Estiva.
Estávamos lá de bandeja, sem saber quem eram aquelas pessoas. Tudo era muito imprevisível. Se alguém roubasse ou matasse a gente, só elas mesmas saberiam.
Um bairro estranho, uma noite escura, cercada de embriagues, eu e o Neander deitados na barraca num silêncio terrível. Cada um tomando conta de seu próprio medo para não assustar o outro. Roleta russa. Ao mesmo tempo em que pensávamos que aquelas pessoas não tinham que ser necessariamente perigosas, só porque a televisão diz isso o tempo todo. A cultura do medo. Mas a gente assiste TV. E tem medo.
O Neander rompeu a cerimônia e falou:
― Eu estou começando a achar que aqui não é um bom lugar para acampar.
Eu respondi a afirmação com uma pergunta, colocando toda a minha aflição para fora de mim mesma:
― Vamos embora?
― Vamos!
Fomos. Desarmamos a barraca de qualquer jeito, apanhamos tudo, metade das coisas ficaram para fora da mochila, calçamos os sapatos molhados e empurramos a moto sem bateria até a pista. Estava tudo tão escuro que nem me dei conta de que já estávamos sobre a pista de asfalto, e bem no meio dela.
O Neander empurrou a moto comigo em cima, carregando ainda a mochila nas costas e a sacola da barraca toda aberta nas mãos, demos um tranco na moto. Ela ligou. Ele subiu nela e começamos a voltar a Barra da Estiva, com a única sensação de que acabávamos de escapar da morte.
E ríamos, guardando ainda um pouco de nervosismo, conservando-nos entre a coragem e o medo, tendo a certeza de que vivemos demais a nossa fantasia de viajar Brasil de moto e fazer da nossa casa o lugar onde a gente está.
Nós devíamos ter chegado cedo naquele lugar, quando ainda tivesse luz do dia, e estabelecido relação. Ou ainda, chegando no escuro da noite, não devíamos ter deixado que nos vissem. Saímos de casa para o desconhecido, somos estrangeiros na Bahia e duas vezes estrangeiros numa periferia da Bahia. Se nem na terra onde a gente habita somos sempre levados em conta, imaginem nas terras de outras gentes. O mundo está todo fragmentado. Há fronteiras entre nações, estados, cidades, bairros, favelas, facções. A cultura geral é a fragmentação cultural.
Quando chegamos em Barra da Estiva fomos procurar informação sobre hotel, pousada ou um lugar que ainda fosse seguro acampar. Disseram que podíamos acampar no palco da praça, pois lá havia guarda a noite toda, ou ainda poderíamos ir ao Hotel Santa Rita e pedir para acampar no estacionamento deles, que era bem grande.
Preferimos procurar o Hotel, subimos uma rua à procura dele, enquanto subíamos vimos um policial lá no alto da rua, e fomos de encontro a ele para pedir mais informações, saber se era mesmo seguro acampar no palco da praça. Mas o homem de farda, com cara de mau, mandou encostar. O Neander desceu da moto perguntando sobre lugar para acampar e o urubu respondia, nervoso, qualquer coisa que não podia nos ajudar.
― Vocês sabiam que estavam andando na contra mão…
― Não.
― Na rua principal da cidade?
― Não sabíamos, como dissemos estávamos procurando um lugar para acampar, nos indicaram o Hotel Santa Rita.
― Hotel Sta Rita… Desçam a rua e virem à direita. Vou dar um desconto pra vocês porque são turistas.
Chegamos no Hotel, lá o Neander conversou com um rapaz chamado Leandro explicando o que se passava conosco. O rapaz disse que o bairro na beira da pista no qual tentamos acampar chamava-se Bairro Cemitério e disse ainda que é um bairro muito perigoso. Ele nos ofereceu uma vaga de carro coberta para a gente acampar, além de banho quente e toalha.
O chão do estacionamento era todo de cimento, e como era duro aquele cimento, todo o nosso peso reagia contra nós mesmos, o chão não absorvia nada, só revidava, como se tivesse raiva da gente só porque queríamos dormir sobre ele. Só porque queríamos dormir.
Dormimos exaustos, deixando nosso corpo desfalecido e o cimento brigarem sozinhos, que o nosso espírito, ainda vivo, queria apenas deixar de reagir um pouco com o mundo, enquanto dormíamos.
3 Comentários até o momento
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Deixou o bairro pobre pra montar sua própria favela no estacionamento? To brincando.
Comentário por Thiago março 1, 2010 @ 12:36 pmNossa que doidera, o nome da quebrada era “cemiterio” ainda bem que vcs deram o fora!
Comentário por Sérgio de Souza março 2, 2010 @ 12:00 amabs
parabens pela determinaçao, moro em vitoria da conquista e achei essse site por acaso, o lugar que passaram em barra da estiva é perigoso , conheço la, voces passaram por cada uma em rsrs.. ate a proxima.. estamos ai.. valeu
Comentário por Dizian Porto julho 1, 2010 @ 4:03 pm