Cabra-fêmea e seus demonhos


7- Turismo Barato
março 19, 2010, 12:23 am
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De manhã, Leandro ainda ofereceu café-da-manhã. Preferimos não abusar, agradecendo.

Pegamos a mesma estrada da noite passada, para chegar enfim em Mucugê. Paramos de novo no bairro Cemitério, de dia, o lugar parecia pacato. Tiramos fotos rapidamente e voltamos à estrada.

Chegando em Mucugê, vimos a Chapada Diamantina de frente, enorme, incrível, sentimos que nossa viagem iria se reconfigurar nos próximos dias.

Mucugê, cidade turística, logo na entrada, um cemitério bizantino, esquisito aquilo ali, mas se diz que a presença de uns turcos que procuravam diamante na região no século dezenove misturada com um monte de mortes devido a surtos de varíola na mesma época fez aquele cemitério existir naquele lugar e daquele jeito, todo branco, pontiagudo, no meio das pedras, o turísmo aproveita, todo mundo acha lindo.

Dentro da cidade, casinhas tradicionais misturada com casas burguesas, sol e calmaria.

Paramos, não sei por que, para fotografar uma Assembléia de Deus e por acaso um louva-a-deus, não com terno e bíblia na mão, mas um inseto mesmo, subiu na nossa mochila enquanto estávamos em pé no chão, subimos na moto e fomos até um bar próximo, o louva-a-deus chegou no bar de moto conosco. Pedimos dois lanches.

O lanche demorou um bom tempo para ficar pronto, e enquanto esperávamos percebemos o louva-a-deus andando sobre nossos corpos, olhando para a gente, virava a cabeça como um cão quando ouve um barulho estranho.

Aquele inseto parecia domesticado, se o colocávamos sobre a mesa, ele estendia suas patas finas e frágeis para nós, e se o tocávamos com a mão, ele subia nela satisfeito.

Brincamos com o louva-a-deus por quase uma hora, depois chegou o lanche e o esquecemos, e nunca mais o vimos.

De Mucugê fomos à Andaraí, observando a paisagem vimos uma placa que indicava “Poço Encantado”, na estrada, bem perto da placa, havia um rapaz parado, perguntamos sobre o Poço, e ele confirmou que estava interditado, o dono da propriedade onde fica o poço fez, na melhor das boas intenções, uma escada de concreto, para o pessoal descer com mais segurança, o Ibama interditou, e multou o homem em alguns milhares de reais. Seguimos em frente. Em Andaraí, paramos para tomar água-de-coco, o homem que nos atendeu tinha sotaque paulista, perguntei de onde ele era, o homem respondeu que era de Ribeirão Preto ao mesmo tempo em que oferecia uma esfirra de palma que acabava de sair do forno. Disse ainda que teve uma escola de inglês durante quinze anos em Campinas e agora estava na Chapada, trabalhando com turismo e vendendo esfirra de palma.

Chegamos em Lençóis só no final da tarde, onde contatamos pessoalmente uma amiga virtual do Everaldo, amigo real do Neander em Campinas.

A moça, Juci, nos recebeu. Acolheu a gente na casa de uma francesa que estava na França. A Juci tomava conta da casa, morando lá. A francesa tinha em seu quintal, além da sua casa (reciclável, como dizia Juci), dois chalés, num deles morava Thierry, francês também, pai de Noam, filho da Juci, o outro chalé Juci emprestou para a gente. E contou que foi a própria francesa quem construiu os chalés, com troncos de árvores , telhas, garrafas de vidro coloridas e pratos quebrados em quatro partes que serviam para entrar luz, cimento misturado com barro, um banheiro de pedras, habitado por calangos e borboletas, a mulher era arretada, dizia Juci, e o lugar era incrível.

Na primeira noite em Lençóis, saímos com Juci para jantar, tomamos cervejas e licor de pimenta, batida de café e de coco e pinga de pitomba. Lençóis é a cidade mais turística da Chapada, muito freqüentada por europeus, a comida do lugar é requintada, e além de vender todos os pratos que são comercialmente típicos da região oferece também a culinária básica de outros países, os preços são até razoáveis.

No dia seguinte resolvemos fazer um passeio turístico comum, mas como o preço era muito alto, cerca de 70 reais por pessoa para visitar rapidinho os pontos mais conhecidos e mais fáceis de se chegar, resolvemos seguir de moto o carro de uma empresa de turismo, o negócio deu certo, fomos no Poço do Diabo, no Morro do Pai Inácio, chegou num ponto em que a perseguição estava tão escancarada que o guia pediu para a gente deixar a moto num posto de gasolina e entrar no carro da agência de turismo, entramos, ninguém reclamou, e ainda fomos no Rio Pratinha e por fim, já quase no fim da tarde, na Gruta da Fumaça, estalactites, estalagmites, elegtites (contra a lei da gravidade, estalactites que mudam o sentido de baixo para cima, no meio de uma formação que demora dezenas de anos para aumentar um centímetro), um outro mundo, um sonho bom.

No dia seguinte fomos a pé ao Ribeirão do Meio, escorregar numa pedra gigante, além disso dormimos bastante na Chapada, o chalé era muito confortável e a Juci muito receptiva, na despedida ela até nos deu um sabonete francês de lembrança, que foi muito útil durante a viagem, ele era grande, nem cabia na saboneteira, durou até chegarmos em casa, em Campinas, e fomos assim, tomando banho em posto de gasolina com sabonete francês, porque a gente é muito fina mesmo.



A morte, Parte 2
fevereiro 25, 2010, 2:59 am
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Chegamos em Barra da Estiva sob chuva. Nossa idéia era acampar no Poço Encantado-Chapada Diamantina, só porque lemos esse nome no mapa. Paramos numa pizzaria, pedimos uma pizza e ficamos recolhendo informações sobre o tal poço.

A garçonete disse que o Poço estava interditado, mas que a gente deveria ir até Mucugê e se informar melhor lá. Perguntei quais eram as condições da estrada que pegaríamos, já que a noite começava a cair. O namorado da garçonete respondeu dizendo que a estrada era muito boa, apenas 86 Km , apesar de ter muita subida, era só a gente ir devagar, completou.

Depois os dois, a garçonete e seu namorado, recomendaram que ficássemos em Barra da Estiva mesmo, partindo pela manhã. Falei que pretendíamos acampar, pois não tínhamos dinheiro para hotel nem pousada. Então eles disseram para irmos mesmo a Mucugê, porque lá teria até camping.

Pegamos a estrada, que começou esburacada. E o escuro da noite tão escura sem nenhuma iluminação na pista, além do farol da moto, fez a gente desistir de ir a Mucugê à noite.

Começamos a procurar um lugar para acampar na beira da estrada, mas quase nenhum lugar agradava, porque não enxergávamos direito, até que achamos uma estrada de terra saindo do asfalto, nessa estrada, a uns cinqüenta metros da pista havia uma escola pública e a cem metros da escola havia uma casa iluminada com barulho de conversa e risada.

Achamos aquele lugar um pouco seguro, parecia estar acontecendo uma festa numa casa próxima, pensei numa festa de família, as pessoas não dormiriam cedo e se acontecesse qualquer coisa com a gente naquele lugar escuro e desconhecido alguém poderia ouvir ou ver.

Montamos a barraca ao lado da escola. De repente começamos a perceber uma movimentação aos arredores. Muitas motos passavam. Da estradinha que ia da escola à casa acesa, passavam muitas motos e as pessoas que estavam em cima delas gritavam, divertindo-se. E gritaram assim:

― Uhuuuuu! Uma barracaaaa!

Daí, começamos a nos preocupar. Ainda não tínhamos terminado de montar a barraca, apareceu uma moto, incomunicável, cercando ela e a gente, o Neander chamou quem estava na moto, querendo conversar, a moto foi embora, silenciosa. Terminamos de nos preocupar e tivemos, então, a idéia de ir até a casa iluminada perguntar qualquer coisa sobre o lugar onde a gente iria dormir e avisar que estávamos acampando por ali.

O Neander foi e eu fiquei tomando conta da barraca. Cansada e com medo, fechei-me na barraca apenas esperando ele voltar. Foi a pior coisa que fiz, uma barraca pequena, fechada, sensível. O medo. Entrei em desespero lá dentro, ouvia passos cercando a barraca, enquanto ficava deitada, imóvel, quadrada, querendo desvendar que os barulhos de passos que eu ouvia não eram passos, mas uma mariposa entre a parte interna e a capa da barraca ou a própria capa da barraca balançando ao vento ou ainda folhas voando. E era um barulho atrás do outro e as descobertas não se sustentavam e meu coração batia mais forte do que uma britadeira quebrando asfalto, então eu abri o zíper da barraca de uma vez e pus a cabeça para fora, com toda a coragem que o medo me dava. Não havia nada, não tinha ninguém. Olhei as estrelas e vi, talvez, o céu mais estrelado da minha vida. Continuei nesta posição, corpo dentro da barraca, sentada, cabeça para fora, observando o céu tão escuro e tão iluminado e pensando como fui estúpida de me fechar na barraca com medo, é como esperar tomar um tiro pelas costas, não dá, a gente prefere olhar. O Neander chegou assustado, mas com calma falou que a casa era na verdade um bar, repleto de motos estacionadas no quintal, uns quatros bêbados caídos na varanda e dentro, numa sala muito pequena, com apenas um balcão e uma geladeira, mais um monte de homens mal-encarados sentados espremidos em bancos que circundavam toda a pequena sala, e ele disse que entrou no bar e cumprimentou um a um e todos respondiam apenas “oi”. Ele explicou ao dono do bar que estávamos acampando e o homem respondeu apenas que “podia”.

Chegamos naquele lugar à noite, não conseguimos enxergar muita coisa, montamos a barraca com o auxílio do farol da moto, chamando a atenção daquelas pessoas que gritaram de longe. Acabamos deixando a bateria da moto acabar de novo, parece que ela não agüenta um segundo se o motor não estiver ligado. Mas o maior erro foi devido ao fato de não termos estabelecido qualquer tipo de comunicação no local, achamos que estávamos num bairro rural e só depois percebemos que o lugar era, na verdade, um bairro periférico de Barra da Estiva.

Estávamos lá de bandeja, sem saber quem eram aquelas pessoas. Tudo era muito imprevisível. Se alguém roubasse ou matasse a gente, só elas mesmas saberiam.

Um bairro estranho, uma noite escura, cercada de embriagues, eu e o Neander deitados na barraca num silêncio terrível. Cada um tomando conta de seu próprio medo para não assustar o outro. Roleta russa. Ao mesmo tempo em que pensávamos que aquelas pessoas não tinham que ser necessariamente perigosas, só porque a televisão diz isso o tempo todo. A cultura do medo. Mas a gente assiste TV. E tem medo.

O Neander rompeu a cerimônia e falou:

― Eu estou começando a achar que aqui não é um bom lugar para acampar.

Eu respondi a afirmação com uma pergunta, colocando toda a minha aflição para fora de mim mesma:

― Vamos embora?

― Vamos!

Fomos. Desarmamos a barraca de qualquer jeito, apanhamos tudo, metade das coisas ficaram para fora da mochila, calçamos os sapatos molhados e empurramos a moto sem bateria até a pista. Estava tudo tão escuro que nem me dei conta de que já estávamos sobre a pista de asfalto, e bem no meio dela.

O Neander empurrou a moto comigo em cima, carregando ainda a mochila nas costas e a sacola da barraca toda aberta nas mãos, demos um tranco na moto. Ela ligou. Ele subiu nela e começamos a voltar a Barra da Estiva, com a única sensação de que acabávamos de escapar da morte.

E ríamos, guardando ainda um pouco de nervosismo, conservando-nos entre a coragem e o medo, tendo a certeza de que vivemos demais a nossa fantasia de viajar Brasil de moto e fazer da nossa casa o lugar onde a gente está.

Nós devíamos ter chegado cedo naquele lugar, quando ainda tivesse luz do dia, e estabelecido relação. Ou ainda, chegando no escuro da noite, não devíamos ter deixado que nos vissem. Saímos de casa para o desconhecido, somos estrangeiros na Bahia e duas vezes estrangeiros numa periferia da Bahia. Se nem na terra onde a gente habita somos sempre levados em conta, imaginem nas terras de outras gentes. O mundo está todo fragmentado. Há fronteiras entre nações, estados, cidades, bairros, favelas, facções. A cultura geral é a fragmentação cultural.

Quando chegamos em Barra da Estiva fomos procurar informação sobre hotel, pousada ou um lugar que ainda fosse seguro acampar. Disseram que podíamos acampar no palco da praça, pois lá havia guarda a noite toda, ou ainda poderíamos ir ao Hotel Santa Rita e pedir para acampar no estacionamento deles, que era bem grande.

Preferimos procurar o Hotel, subimos uma rua à procura dele, enquanto subíamos vimos um policial lá no alto da rua, e fomos de encontro a ele para pedir mais informações, saber se era mesmo seguro acampar no palco da praça. Mas o homem de farda, com cara de mau, mandou encostar. O Neander desceu da moto perguntando sobre lugar para acampar e o urubu respondia, nervoso, qualquer coisa que não podia nos ajudar.

― Vocês sabiam que estavam andando na contra mão…

― Não.

― Na rua principal da cidade?

― Não sabíamos, como dissemos estávamos procurando um lugar para acampar, nos indicaram o Hotel Santa Rita.

― Hotel Sta Rita… Desçam a rua e virem à direita. Vou dar um desconto pra vocês porque são turistas.

Chegamos no Hotel, lá o Neander conversou com um rapaz chamado Leandro explicando o que se passava conosco. O rapaz disse que o bairro na beira da pista no qual tentamos acampar chamava-se Bairro Cemitério e disse ainda que é um bairro muito perigoso. Ele nos ofereceu uma vaga de carro coberta para a gente acampar, além de banho quente e toalha.

O chão do estacionamento era todo de cimento, e como era duro aquele cimento, todo o nosso peso reagia contra nós mesmos, o chão não absorvia nada, só revidava, como se tivesse raiva da gente só porque queríamos dormir sobre ele. Só porque queríamos dormir.

Dormimos exaustos, deixando nosso corpo desfalecido e o cimento brigarem sozinhos, que o nosso espírito, ainda vivo, queria apenas deixar de reagir um pouco com o mundo, enquanto dormíamos.



6- A morte
fevereiro 20, 2010, 8:44 am
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A estrada começou a ficar perigosa, carros e caminhões vinham na contra-mão tentando ultrapassagem, mesmo com faixa contínua, mesmo com a gente andando no nosso lado da pista, muitas vezes fomos obrigados a sair pelo acostamento. Na Rio-Bahia ainda em MG a pista começou a ter apenas duas faixas, uma que vai e outra que vem e de vez em quando aparecia uma faixa auxiliar.

O trânsito reflete bem o espírito do homem moderno: o ódio, o egoísmo, a pressa, a competitividade.
Todo mundo fica o tempo todo se ultrapassando. Sem parar. Moto com menos de 350 cilindradas não existe nas estradas, passam ao lado da gente, em alta velocidade, dividindo a mesma faixa, sem nem se deixarem ser vistos no retrovisor da moto. E às vezes somos obrigados a passar em buracos, sem poder desviar, porque ficamos espremidos entre o carro de um idiota e a faixa do acostamento.

Um caminhão desceu uma curva muito rápido ocupando um pouco da faixa dele e mais da metade da nossa, a velocidade era tanta que ele nem conseguia fazer a curva direito. Tomei um susto. E demorei para reagir. Acho que não conseguia acreditar naquela cena. Mas quando percebi que era real e que já estava acontecendo, apenas fiz a curva ao lado dele, no pequeno espaço que me sobrou para isso. Fui fazendo a curva, pensando na morte e achando que não conseguiria mantê-la até o final do caminhão, que eu nunca completaria aquela curva, fechada, veloz e apertada.
Saímos vivos do outro lado. Eu, trêmula. Seguimos viajando.
Depois desse caminhão, vários carros que tentavam se ultrapassar usavam a faixa da contra-mão enquanto estávamos passando, empurrando-nos para o acostamento.
Isso começou a ficar tão comum, que eu achei que iria até o Maranhão de moto pelo acostamento. Alguns carros ainda vinham dando farol alto, dizendo mesmo para a gente sair da frente que eles estavam passando na contra-mão. Quando eu sentia que a gente poderia morrer, saía. Quando o trânsito estava mais intenso e as velocidades mais calmas, eu não saía não. Buzinava, mostrava o dedo-do-meio, obrigando o idiota a voltar à sua faixa e esperar. Tem que aprender a esperar, criança aprende. O cara cresce e fica bobo? Fica. E compra um carro.

Na verdade, estávamos todos no mesmo jogo, com sangue nos olhos, odiosos, apressados, com o ego lá no alto, numa competição que só leva todo mundo, o campeão da pista e os outros, para o mesmo lugar onde já se ia, só que a gente chega vivo ou morto. É essa a diferença. E dá para ver quem é que se morre na estrada, o problema é que quem morre também mata. Então, temos que tomar muito cuidado se quisermos chegar ao Maranhão, e tomarmos mais cuidado ainda se quisermos voltar do MA. (Tomamos).

Em Vitória da Conquista perguntamos como fazíamos para chegar em Lençóis-BA, indicaram-nos pegar a BR-030, que vai para Caetité. O Guia 4 Rodas já indicava que a rodovia estaria precária, as pessoas alertaram “muito buraco, vão devagar”. Iríamos até Anagé, onde viraríamos para a direita, sentido Tanhaçu, Ituaçu, dessa maneira pegaríamos apenas 45 Km da rodovia esburacada.
Quando chegamos na BR-030 não acreditamos, era muito buraco, tinha mais buraco do que asfalto. Pista para equilibrista. A rodovia era repleta de placas dizendo para andar no máximo a 60Km/h porque havia obras na pista. Não vimos nenhuma obra nem nada que indicasse que aquilo havia sido reformado nos últimos anos. Era a clara visão do abandono, e o DNIT mandando ir a 60Km/h para se livrar do presunto e culpar apenas o indivíduo por sua própria morte. Amém.
De Anagé até Tanhuaçu a pista melhorou. Depois piorou de novo. Nessa pista não havia buracos, mas era tanto remendo, tanto remendo, que a moto só trepidava, nossos membros coçavam, formigavam, de sentir o sangue chacoalhando no corpo. Um monte de remendo mal feito, antes terra do que asfalto torto, pelo menos a terra é mais maleável e se assenta sozinha, o asfalto quem assenta é o homem, e assenta de acordo com quem passa por ali ou com o quanto de lucro a pista dá para a concessionária. O governo lava mesmo suas mãos.
Em Ituaçu, onde a pista é toda torta, os patrões se deslocam é de avião. Existe uma pista de pouso lá, que recebe aviões de pequeno porte.
Conhecemos o gerente desse pequeno aeroporto, ele se apresentou como João Carlos de Oliveira da Silva. No meio da apresentação ele ainda me ofereceu um cartão, o cartão do Controlador Geral do Município, pedindo para eu riscar o nome do Controlador e escrever o seu. E esse era o cartão do João Carlos de Oliveira da Silva.
Encontramos o João Carlos num bar, estávamos passando de moto por Ituaçu querendo chegar em Barra da Estiva, mas de uma hora para outra começou a cair uma chuva ameaçadora, paramos a moto às pressas e entramos num bar, que ficava bem em frente ao pequeno aeroporto. Muita chuva e muito vento. Pela porta do bar, admirávamos o tempo, chocados e aliviados. Nivaldo, o dono do bar disse que já fazia um ano que não chovia tanto assim naquela região.
João Carlos de Oliveira da Silva, gerente do aeroporto Ituaçu-Bahia, estava nesse bar, carregando sua massa grande e negra, com todo o álcool que corria pelo seu sangue tipicamente vermelho de quem nasce em Ituaçu, terra de Moraes Moreira e Gilberto Gil, orgulhavam-se disso os homens de lá.
O negão estava muito louco, como diziam os outros homens do bar. João começou a ficar nervoso com os comentários e pediu um conhaque com gelo e limão e sonrisal para aliviar, e talvez efervescer e evitar os distúrbios gástricos do dia seguinte. O Nivaldo não queria servir conhaque ao João, mas o segundo insistiu tanto que o primeiro cedeu.
Nivaldo sempre tentava explicar que João Carlos era homem muito respeitável, mas que estava alcoolizado ali. Dizia que era somente o João quem guiava qualquer caminhoneiro que nunca tivesse passado por Ituaçu e quisesse encontrar qualquer lugar. E contava que uma vez teve um amistoso do Brasil no Rio de Janeiro e os “bam-bam-bam” da cidade alugaram um ônibus para eles irem ver o jogo no estádio. João queria ir também, mas os outros não queriam deixar.

― Que você sabe como essa gente é.

Mas o João encheu tanto o saco que acabou indo. E o negão, sem todos os dentes na boca, foi no ônibus junto com os empresários e políticos da região, até o prefeito estava nesse ônibus.
Só que no caminho houve um acidente terrível.
E sabem quem foi o único que não se machucou?
O João Carlos de Oliveira da Silva.
E ele salvou muitas vidas. Salvou a vida de quase todo mundo ali.

A chuva passou, resolvemos ir embora do bar, a contragosto do João, que queria que dormíssemos em Ituaçu e queria também pagar nossa cerveja. O Nivaldo interveio dizendo ao João que deixasse a gente pagar nossa cerveja, porque depois ele iria pendurar a conta. E essa conversa deu numa briga só, porque o gerente do aeroporto queria muito fazer a gentileza, mas sempre pagava depois. E o Nivaldo pendurava a conta dele numa boa. Mas a simpatia do negão de “pagar” para quem é de fora, ia dar muito prejuízo e então o dono do bar insistia para que a gente pagasse, enquanto o João dizia que era para pôr na conta dele. A gente pagou no final.
O João ficou bravo e foi lá fora, onde não havia mais chuva. Mas a lama ficara lá. E o João caiu na lama, caiu bonito, de chinelos Havaianas, reclamando da terra molhada, disfarçava a bebedeira.
Fomos embora dando risada e nos despedindo de todos, do Nivaldo na porta do bar e do João se lavando na mangueira, ainda insistindo para que esperássemos um pouco, porque ele queria nos mostrar um atalho para chegar em Barra da Estiva. Preferimos a pista.
Se Tião Madô já dizia:
“― Mais vale uma volta bem dada do que um ataio mal ataiado.”
O que diria do atalho embriagado?



5- De volta à estrada
fevereiro 14, 2010, 10:53 pm
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Pegamos de novo a Rio-Bahia, agora com destino à Vitória da Conquista-BA, onde viraríamos à esquerda, para chegar em Lençóis, na Chapada Diamantina.

Andamos bem, 300Km, e saímos tarde de Manhumirim, lá pelas onze horas da manhã, só paramos mesmo de dirigir em Campanário, depois de Governador Valadares, a cidade das bicicletas coloridas. Lá as bicicletas parecem todas iguais, com aquele quadro mais baixo, garupa atrás, guidom alto. Mas as cores, as cores são o que as diferenciam. Vimos a bicicleta mais bonita do mundo passando bem ao nosso lado, verde e roxa, enquanto tomávamos água num bar em uma periferia que beira a rodovia, quando Governador Valadares quase acaba.

Aqui as pessoas começaram a estranhar a gente. Mais para o norte de Minas, Campinas não é tão perto. Fora isso, pelas estradas e pelas beiras das estradas, que são os lugares por onde temos passado, a nossa estética também destoa e as pessoas olham, umas olham apenas curiosas, outras se incomodam. As crianças? As crianças riem.

Ainda nesse último bar, numa mesa ao lado da nossa havia duas pessoas, um homem e uma mulher, o homem parecia ser travesti, apesar de não estar travestido, ele tinha os cabelos bem lisos e bem pretos e bem compridos, parecendo alisados e tingidos, seu rosto era composto de traços mais parecidos com os traços dos rostos de mulheres, não sei se era maquiagem ou hormônio que se toma ou se o rosto dele sempre fora daquele jeito. Bem, este homem interagia o tempo todo com a gente, falava de maneira espalhafatosa focando o olhar na nossa direção, perguntava, sem esperar resposta, se éramos gringos e falava outras coisas que não conseguíamos entender. A mulher que estava sentada na mesa junto com ele começou a se incomodar e até virou sua cadeira para olhar a gente fixamente com cara de má, o Neander ouviu ela me chamando de sapatão, em tom ofensivo. Ainda bem que não achamos uma ofensa a orientação sexual das pessoas. Assim o assunto acabou ali mesmo.

Os dois foram embora, nós continuamos sentados. Depois de algum tempo uma mulher que estava sentada numa mureta junto à dona do bar levantou-se e veio em nossa direção. Ela estava arrumada como quem freqüenta alguma igreja evangélica pentecostal, ou vestida como crente, numa denominação mais popular. Ela chegou até nós, apertou nossas mãos e desejou tudo o que de bom poderia nos desejar, em nome de Deus, porque estávamos ali bem sossegados. Ela deve ter visto o comportamento da outra mulher que me chamou de sapatão, procurando briga. Deus e o Diabo na beira da estrada.

Andamos ainda alguns quilômetros e resolvemos dormir em Campanário. Paramos num bar, tomamos cervejas e perguntamos onde dava para acampar por ali. Indicaram o campo de futebol da cidade. Perguntamos, então, se seria tranqüilo acampar no campo de futebol da cidade, disseram que a cidade é bem tranqüila, não há furtos.

Na frente do bar havia uma pousada, na frente da pousada tinha um mulher, estriquinada, convencendo as pessoas que passavam de carro na lombada a passarem uma noite lá. Nós preferimos acampar no campo de futebol a pagar 40 reais. Mas aceitamos pagar 10 reais cada um por um jantar à vontade, com banana-da-terra cozida com casca e um banho quente.

Fui a primeira a subir para tomar banho, a mesma mulher que ficava louca na frente da pousada atrás de cliente, levou-me até um quarto de hóspede para tomar banho no banheiro do quarto. Tranquei a porta e já quase no final do banho a luz acabou de uma vez, consegui terminar tudo com água gelada e escuro. O tato funcionou bem. A única coisa que deu errado foi que eu lavei a calcinha limpa ao invés da suja. Depois lavei a outra e fiquei sem calcinha mesmo até de manhã.

O Neander tomou o banho inteiro gelado com luz de vela. Uma família quis ir embora da pousada, mas não é que a mulher alucinada buzinou tanto na orelha de um deles que eles acabaram aceitando ficar, com a promessa de que a luz voltaria logo e eles dormiriam com TV e ventilador e poderiam ir tomando banho porque os chuveiros eram aquecidos com energia solar. O nosso não era. A família ficou.

Fomos armar a barraca no campo de futebol, a noite foi boa, tirando que, ainda quando estávamos procurando um lugar para montar nossa casa, escolhemos um mato que parecia agradável, o Neander nem tinha tirado a mochila das costas e eu tentava parar a moto sobre o pezinho dela, mas não encontrava equilíbrio no mato fofo, de repente senti umas picadas muito doloridas no pé (eu estava de chinelos) e o Neander começou a sentir uma ferroada que lhe doía cada vez mais, eu tomando várias picadas, não sabia se largava a moto e tirava os bichos do meu pé, ou se tentava tirar logo a moto dali agüentando toda a dor, no desespero, não fiz uma coisa nem outra, gritei para o Neander segurar a moto, ele veio me acudir, suportando a saúva que lhe tirava sangue, enquanto eu retirava uma meia-dúzia de saúvas do meu pé.  No final, mudamos de lugar e dormimos bem ao som de alguns passarinhos noturnos e acordamos com outros cantos, de outros tantos passarinhos.

Acordamos cedo. Já tinha gente no campo, um senhor carregando mudas, algumas crianças conversando, ninguém se importou com a nossa presença.

Pegamos a Rio-Bahia de novo, ainda sentido Vitória da Conquista. Minas Gerais é mesmo interminável.



4- Cocaína
fevereiro 14, 2010, 1:27 pm
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Chegamos em Manhumirim na véspera da véspera do Ano Novo. No caminho, outra placa cristã “Acredite na sinalização”. Saímos da Rio-Bahia em Fervedouro, passamos pela região de Alto Caparaó, do Pico da Bandeira. Paisagem exuberante. As montanhas. Cidadezinhas pacatas, Carangola, distritos mais pacatos ainda, Alvorada, cem metros de rua principal, uma praça, casas com janelas que dão direto para a rua, rua com muitas lombadas e cachorros serenos serenando.

Assim que paramos a moto em Manhumirim, um homem veio até nós oferecer cocaína. Manhumirim, quinze mil habitantes. O homem queria vender por 15 reais. Não compramos.

Encontramos o pai do Neander num restaurante, conversamos e tomamos cervejas. A chuva ainda ameaçava cair forte. Não caiu, desabou. Como tem água no céu no verão tropical atlântico-sul. Incrível.

Esperamos a chuva passar e fomos ver o quarto que o pai do Neander arrumou para a gente. Num prédio novo e vazio de três andares, um quarto na cobertura. Cama, vitrola, vinis, cd’s, livros, revistas, gibis. Ficamos bem.

Comida boa da Elis, esposa do pai do Neander. Um sono sem fim. Comemos, dormimos.

Já era véspera de Ano Novo e queríamos pegar estrada, a fim de encontrar, perto da meia-noite, uma cidade pacata que gostasse de ser pacata. Manhumirim estava estranha. Cidade pacata com pretensão de ser cidade grande, no final era tudo cafona demais. E a chuva não deu trela. Nem a preguiça.

E fomos ficando. Almoçando de novo a comida da Elis. Quando chegamos no apartamento deles, deixei minha pochete no sofá. Almoçamos, usamos a internet, escrevi um pouco, conversamos bastante. Na hora de ir embora tirar um cochilo no quarto que nos estava servindo de abrigo no prédio vazio, fui pegar minha pochete em cima do sofá e vi um pacote de cocaína caído ao lado dela, aberto, meio esparramado. Arregalei os olhos, tentei me comunicar com o Neander, não consegui. Entre deixar lá o pacote e fingir que não o ví ou alarmar todo mundo ou pegar e guarda-lo comigo… Peguei… E assoprei o que, esparramado, insistia em ficar lá.

Coloquei o pacote na pochete e enquanto descíamos as escadas, descrevi a cena para o Neander. Não deu para conversar, o pai dele descia logo atrás, só deu tempo de o Neander me garantir que não era dele.

Passamos no mirante da cidade antes de irmos para o quarto, e lá deu pra ver que em Manhumirim, 15 mil habitantes, também tem favela. Fotos e enigmas. De quem era a farinha?

Do pai do Neander? Da sua esposa, a Elis? Da irmã da Elis que também passou por ali nos últimos dias?

O pai do Neander deixou a gente no prédio vazio e foi embora. Dissemos que pegaríamos estrada no mesmo dia, 31, porque não queríamos passar o Ano Novo parados.

Dormimos.

Acordamos as dez da noite, resolvemos voltar ao apartamento deles para desejar feliz Ano Novo, pelo menos. Tomamos champanhe, vimos os fogos pela janela do apartamento e, no meio disso:

― É… tinha um pacotinho aqui em casa… com um pó branco dentro… que eu e a Elis achamos na escada do prédio e não sabíamos o que era, droga, giz…e queríamos mostrar pra vocês verem o que é. Mas ele sumiu. Eu já procurei em todo canto da casa e não encontrei. Por acaso vocês pegaram?

O Neander riu primeiro, eu ri depois. Expliquei que fui eu quem peguei, porque dei de cara com o negócio e não soube o que fazer, vai que o Neander tivesse comprado quando o homem ofereceu, eu vi que ele não tinha comprado, mas vai saber e, no final, fosse de quem fosse, achei que fiz uma boa ação livrando o B.O de alguém.

No final todos chegamos à conclusão de que a droga era de uns vizinhos que, descuidados, deixaram cair na escada do prédio. E sabem quem achou de verdade? A Mel, a cachorrinha deles, yorkshire-mini, quase do tamanho do saco de pó. Ainda bem que ela não comeu, só cheirou.
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3- Dia de Oração
fevereiro 11, 2010, 12:57 pm
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Agora nosso objetivo era chegar em Manhumirim, cidade mineira onde mora o pai do Neander, já quase na divisa com o estado do Espírito Santo. Atravessamos Cruzília e toda a sua simpatia e pegamos estrada, de asfalto, sentido Aiuruoca, andando a 80, 90 Km/h, parecia que estávamos rápidos demais depois de demorar dia e meio para atravessar 40 Km de terra. Perto de Seritinga, uma placa na beira da estrada dizia “Por amor à vida, diminua a velocidade”. Diminuí. Pensando na vida e na morte e na apelação da placa de trânsito, parecia que ela dizia “Pelo amor de Deus, não se mate”. Fiquei pensando no tamanho da crença do prefeito ou do cara do DNIT ou do Ministro dos Transportes, quem pôs a placa ali já deve ter perdido um parente naquela curva.

Chegamos em Juiz de Fora já era noite e chovia outra vez. Resolvemos dormir lá e conseguimos o contato de uma amiga, de muito anos atrás, da mãe do Neander, que poderia nos dar abrigo.Tomamos algumas cervejas num bairro periférico de Juiz de Fora, Barbosa Lage, e comemos miniporções de dois reais cada uma (de lingüiça, torresmo, mandioca…).

Neuzinha, esse era o nome da amiga da mãe do Neander, passou seu endereço para a gente pelo telefone, dizendo que podíamos dormir na casa dela. Saímos de moto ainda na chuva em direção ao bairro Santa Rita. Um morro sem fim, demos de cara com uma ladeira tão íngreme, tão íngreme que bateu todo o trauma dos últimos 40Km na terra, e aquela ladeira coberta de asfalto úmido, fazendo quase noventa graus na frente dos nossos olhos só nos fazia imaginar que o motor da moto não agüentaria e que quando sua força tivesse findando e eu pisasse no freio, a moto iria derrapar de ré até o começo da ladeira, incontrolável.

Nós dois estáticos encarando a ladeira, uma moça passava de guarda-chuva ao nosso lado, perguntamos se havia outro caminho para se chegar lá em cima. A moça apontou um caminho por fora, que contornava o morro, o caminho do ônibus.

Aliviados, demos a volta no morro, subindo, sempre subindo. Chegamos na casa de Neuzinha, ela já nos esperando escancarou o portão para que guardássemos a moto na garagem ao mesmo tempo que nos cumprimentava, extasiada. Comparava as feições do Neander às do pai dele, Luís Carlos, que conhecera ainda jovem e chamava o Neander de Luís.

Entramos na primeira casa do terreno, na casa de baixo, Neuzinha nos apresentou à sua mãe, à sua irmã, ao papai não, que ele já estava indo dormir e também já não entendia direito as coisas, por causa da idade avançada. Subimos na casa de cima, a casa de Neuzinha, lá ela ofereceu seu próprio quarto para dormirmos e também dizia que havia um quarto vazio em cima, do filho que mora no Rio, mas como ela adora visitas, sempre empresta seu quarto, para a visita se sentir mais à vontade. Preferimos ficar com o quarto de cima.

Antes de subirmos, ainda mais, em cima da casa da Neuzinha, ela nos contou a história de sua família:

Um dos filhos mora no Rio, ele tem dois empregos. O outro toca bateria na igreja batista. E tem mais um que é soldado. Este queria muito ir para a missão da ONU no Haiti, que o Brasil lidera, mantendo lá tropas do exército brasileiro.

O filho soldado de Neuzinha queria muito ir para o Haiti em nome de uma suposta missão de paz, armada, violenta, mas achava que não iria conseguir. Fez todos os exames, muitos exames físicos, exames de sangue, acabou-se descobrindo que ele era portador de anemia falciforme, anemia hereditária, comum entre africanos e seus descendentes. O marido de Neuzinha era mulado, ela falou. Mas o filho é saudável, alimenta-se bem, é bastante alto, ninguém nunca soube que ele era portador dessa anemia aí.

Neuzinha orou muito e pediu para o filho ficar calmo, que Deus resolveria tudo.

Bem, se é Deus ou a Guerra imperialista quem resolve tudo, não sabemos, mas o filho da Neuzinha acabou sendo chamado para ir ao Haiti. Houve uma desistência no final, o que lhe rendeu a vaga.

E ele vai já, em fevereiro, e volta só em agosto[1]. A mãe estava feliz por isso, talvez porque ela não conheça o Haití e tampouco saiba o que as tropas brasileiras fazem lá, em nome de uma missão de paz.

Neuzinha contou também que seu filho teve uma namorada e ela gostava demais da moça, nossa como ela gostava da moça, mas não é que os dois terminaram o namoro?, e Neuzinha chorou, chorou, chorou por uns três dias, parecia até que quem tinha terminado o namoro com a moça era ela mesma.

Depois disso, combinou com o filho que ele nunca mais poderia trazer nenhuma namorada para dentro de casa, porque depois ele termina e ela fica sofrendo. Só quando ele fosse casar, aí sim poderia levar a moça em casa.

E ele estava até demorando para chegar naquela noite e Neuzinha estava ansiosa, querendo que nós todos nos conhecêssemos. Mas ele não chegava. A mãe sabia que ele estava namorando por aí, mas tudo bem, por aí ele podia namorar, mas dentro de casa nunca mais. O filho respeitava.

Eu queria que ele pudesse namorar em casa, que assim ele poderia estar lá naquela noite para a gente perguntar para ele mesmo por que ele queria tanto ir para o Haiti.

Fomos para o quarto de cima, Neuzinha subiu com a gente, levando cobertor, lençol, fronha, papel higiênico. Mostrou fotos do filho, os filmes e livros dele. Nessa hora fomos apresentados também à tia dela, que subiu no quarto para ajudar a abrir o sofá-cama. Neuzinha ainda conectou um aparelho de telefone no cabo que saía da parede para usarmos caso quiséssemos fazer alguma ligação e, antes que pudéssemos dizer que não faríamos ligação alguma, o telefone tocou.

Era a mãe do Neander querendo saber se tínhamos encontrado a casa da Neuzinha, nesse momento a mulher, na nossa frente, ficou extasiada de novo e gritava ao telefone, virada para a parede, num vão entre a cama e o guarda-roupas, inclinava-se cada vez mais para o chão, por causa do tamanho do fio do telefone:

― Talita! Seu filho está aqui! Ele é lindo, Talita! E sua nora também! Talita!!!

O Neander ficou no telefone e eu subi com a Neuzinha na lage, em cima do quarto, para ver Juiz de Fora. Muito morro, um Cristo, um shopping redondo, avenidas esparsas.

Neuzinha desceu para sua casa.

Tomamos um banho e fomos dormir.

Prometemos acordar às seis horas, acordamos quase nove. Arrumamos nossas coisas, subimos na lage para tirar fotos e descemos à casa principal para nos despedir.

Neuzinha estava na cozinha, a todo vapor. Ofereceu café-da-manhã. Aceitamos.

O papai, que na noite anterior não nos fora apresentado, apareceu na cozinha, com a ajuda de sua esposa, a mãe de Neuzinha.

Cumprimentamo-nos. Ele já não enxergava e tinha dificuldade de se locomover. Fora soldado do exército também, em MG há muitos soldados, agora o velho tem 91 anos. Apertamos nossas mãos.

Enquanto tomávamos café, convidamos a família para uma foto. O ex-soldado, com olhar disperso, talvez por causa da cegueira, quando era chamado a olhar para a foto, fazia tanta força, tanta força, que seus olhos focavam-se dispersos num vazio fotográfico, qualquer coisa entre a imaginação do velho e o registro da máquina.

No final, a família, batista, pediu para orar pela gente. Aceitamos.

Os cinco de mãos dadas em volta da mesa, apenas o papai ex-soldado do exército ficou sentado. As duas mulheres fecharam os olhos e começaram a orar. A mãe de Neuzinha foi quem dirigiu a oração, de maneira improvisada e eloqüente resumiu nossa viagem e pediu a Deus que nos protegesse. Era bonito ouvir. Neuzinha falava junto frases mais curtas. Era um pouco confuso.

Fomos embora, rumo a Manhumirim.


[1] Essa conversa aconteceu no final de dezembro de 2009, antes do terremoto. Farei um apêndice no final da obra, sobre a situação específica do Haiti e a atuação da Minustah.



Tião Madô
fevereiro 11, 2010, 12:19 am
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Choveu a noite toda, a barraca agüentou bem. Algumas coisas que deixamos no varal improvisado molharam mais ainda, as outras simplesmente não secaram. Durante toda a manhã a chuva ainda não havia cessado e começamos a nos sentir ilhados em São Tomé. No começo da tarde saímos do camping para almoçar e acessar a internet. A previsão do tempo acusava chuva, 90% de possibilidade de chuva em todo o sudeste para as próximas duas semanas, pelo menos.

Começamos a nos preocupar com a nossa partida. Sairíamos de São Tomé por uma estrada de terra, de 40 Km,que vai até Cruzília. Mas como estava tudo muito molhado, pensamos que a estrada de terra poderia estar intransitável.

Enquanto o Neander ainda usava a internet, eu saí para ver se alguém conhecia a tal estrada, apontaram-me um nativo que se apresentou como Tomé, ele era nascido em Cruzília na verdade, e quando era jovem costumava fazer esse trajeto de moto sem nem se importar com a chuva, mas ponderou que hoje não faria mais isso não e concluiu: mas dá pra ir sim, vai devagar.

Pronto. Agora eu já queria pegar estrada de terra de moto na chuva. O Neander ainda estava desconfiado.

Voltando para o camping, passamos por um brechó, aproveitei para ver se tinha uma calça que me servisse, já que a minha estava molhada e pretendíamos partir, de alguma maneira. Os donos do brechó, um homem e uma mulher, também nos falaram sobre a estrada, e no meio de um monte de dúvidas, o homem achou que dava para ir, a mulher continuou achando que não, era muito perigoso. Uma calça me caiu bem, dez reais.

No camping havia um velho sentado na cozinha. Chamava-se Tião Madô:

― O senhor conhece a estrada que vai para Cruzília?

― Ah, conheço.

― Dá pra pegar ela de moto nessa chuva?

― Ah, de moto dá.

Conversa vai, conversa vem, Tião Madô reclamou da vida, das goteiras da sua casa. Dizia que eram muitas e que não agüentava ficar sozinho naquela casa cheia de goteiras. Eu falei que ele não ficava sozinho, pois tinha as goteiras para acompanhar, e eram muitas. Tião Madô riu e contou ainda que até pretendia alugar sua casa para temporada no Ano Novo, mas que com todas aquelas goteiras ele sentia até vergonha e também para ter que devolver o dinheiro no final, porque a pessoa ia reclamar das goteiras, né, era melhor nem alugar nada mesmo. Tião Madô era uma estrela, reclamava e ria da vida, dava show.

Quando ele se sentiu à vontade no meio da nossa conversa, começou a descrever o trajeto de terra de maneira catastrófica. Dizia que não dava para ir, que ninguém estava pegando aquela estrada nos últimos dois dias e quem era de Cruzília estava preferindo dar a volta por Três Corações. E assim devíamos também fazer.

― Mais vale uma volta bem dada do que um ataio mal ataiado.

Tião Madô disse que a gente ia lembrar desse aviso e disse ainda que a estrada estaria cheia de buracos, que a moto nessas horas quebra e que se a gente ainda fosse naquele dia, a gente iria passar a noite na estrada, porque quando cai a noite, vira um breu que não se vê mais nada.

No meio das profecias do Tião Madô, eu perguntei por que, antes, logo de cara ele falou que de moto dava para ir e depois jogava tanto terror em ir de moto pela estrada de terra molhada lá pelas cinco horas da tarde.

Tião Madô respondeu, reflexivo:

― É porque depois eu raciocinei.

― Mas Tião Madô, dá ou não dá pra ir?

― Ah, dá. Só que vocês vão chegar amanhã ou depois de amanhã. E eu torço pra que vocês cheguem bem. (ria)

Fomos. Na boca da estrada perguntamos a um menino se o caminho era por ali mesmo e se dava para ir de moto, nessa hora apareceu um homem que estava junto com o menino oferecendo pousadas para turistas perdidos. O menino falou, com ar de negação, que a estrada estava uma lama só, o homem cortou o menino, imperativo, dá pra ir sim!

Fomos.

A chuva tinha diminuído. Havia carros vindo de encontro à gente na estrada. Parecia que ia ser difícil o percurso, mas que dava para seguir adiante. E era só isso que queríamos, seguir adiante.

Seguimos.

Ainda no começo, caímos. Estamos indo com uma Strada, 200 cc da Honda, nada apropriada para terra, o peso da moto está maior atrás, o Neander e uma mochila com todas as nossas coisas, a nossa casa. A derrapada foi inevitável, ninguém se machucou, mas o manete da embreagem quebrou (ê, Tião Madô). A sorte foi que o cabo não soltou e ainda dava para usar a embreagem se eu não soltasse nunca o manete, segurando-o sempre na posição dele.

Continuamos.

Agora mais cuidadosos, o Neander descia várias vezes da moto e ia a pé algum trecho para evitar outra queda. E fomos assim por mais alguns quilômetros. Começou a escurecer e já não dava para ver direito o chão (ê, Tião Madô), caímos de novo, dessa vez queimei a perna, resolvemos parar e acampar. Abrimos uma porteira e fomos montar a barraca. O Neander quis usar o farol da moto para a gente se ajeitar melhor. Enquanto mirávamos o farol onde montaríamos a barraca, esquecemos de ligar o motor da moto e a bateria acabou (ê, Tião Madô).

Desistimos da moto e montamos a barraca no breu da noite só com a ajuda de uma pequena lanterna. Barraca montada no meio do pasto, boi mugindo ao nosso lado, acabamos dormindo na estrada (ê, Tião Madô).

Dormimos bem, a barraca de novo agüentou bem a chuva da madrugada. Levantamos as sete da manhã, arrumamos as coisas e tentamos ligar a moto. Não ligou. Demos um tranco nela, na lama, com o manete da embreagem quebrado. Agora faltavam uns 15Km para chegar em Cruzília. Seguimos viagem, dessa vez ainda mais cautelosos, o Neander fez grande parte do percurso a pé, levando a mochila nas costas.

Encontramos pessoas no caminho e já não chovia. Na beira da estrada dois homens, uma mulher e um filhote de cachorra perguntaram-nos de onde a gente vinha.

― De São Tomé.

― E como tá a estrada lá pra trás?

Explicamos que estava bem ruim ontem, mas que hoje já deveria estar melhor porque a chuva havia amenizado. Percebi que um dos homens, sem entender, demonstrou-se curioso. Expliquei que estávamos naquela estrada desde o dia anterior, que caímos duas vezes de moto e que a noite veio quando ainda nos faltava andar 15 Km, por isso resolvemos, então, dormir na estrada.

O homem riu.

Daí, expliquei que tínhamos barraca, que deu para dormir.

O homem riu de novo. E perguntou se estava passando caminhão por ali. Dissemos que sim, que ouvimos barulho de caminhão bem cedinho.

― Bem cedinho que horas?

― Umas seis da manhã.

― Seis da manhã? Ah, então era ônibus, que a gente tá aqui desde às seis da manhã e não passou nenhum caminhão. Já segui tudo os rastros dos pneus. Só passou ônibus.

Fomos embora deixando para lá a conversa, um pouco mais à frente encontramos uma venda. Pedimos uma água e um pacote de bolacha. Conversando com o dono da venda, contamos outra vez o que tínhamos passado desde a noite anterior. O homem falou que devíamos ter continuado, pelo menos até o bar dele, pois poderíamos acampar ali, embaixo da cobertura. Agradecemos a gentileza. Ele falou também que aquela estrada na chuva derruba mesmo, ele que tem uma moto pra terra e que está acostumado, outro dia mesmo, deitou com a moto também.

Despedimo-nos. E o dono do bar ainda nos tranqüilizou:

― Daqui pra frente a estrada é melhor.

E foi.

Chegamos em Cruzília por volta de dez horas da manhã e com o Tião Madô na cabeça:

“Por que é que ele não avisou?”

Enlameados da cabeça aos pés, demos logo de cara com uma mecânica de motos, trocamos o manete da embreagem e ajustamos a corrente da moto. Procuramos também um borracheiro para tapar o vazamento dos pneus, que estavam vazando, bem devagar, mas vazando, desde Campinas. Ao lado do borracheiro havia um posto de gasolina. Pedimos para tomar banho, disseram que tudo bem. Depois pedimos para estender as roupas molhadas, tudo bem. Vimos que meninos lavavam suas bicicletas no lava-rápido do posto e que homens lavavam seus carros e motos. Perguntamos se era de graça. Sim. Lavamos então a moto, nossos sapatos e as capas-de-chuva enquanto as outras roupas secavam.

O Neander foi buscar dinheiro e comida. Almoçamos marmita também no posto. E Cruzília foi o nosso porto seguro.

― Mas, Tião Madô, dá ou não dá pra ir?

― Ah, dá. Só que vocês vão chegar amanhã ou depois de amanhã. E eu torço pra que vocês cheguem bem.

Torceu.

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O 1° dia, São Tomé das Letras
fevereiro 11, 2010, 12:18 am
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Aparamos os pêlos, barba e cabelo. Raspei a cabeça na máquina número dois. Saímos ansiosos de Campinas, com destino a Três Corações. Fomos por Serra Negra, o que nos rendeu algumas horas a mais até a primeira parada, Ouro Fino. Preço do Prato-Feito: sete reais (para se servir a vontade!, a diferença entre o PF e o Self Sevice do Biba’s Restaurante estava no tamanho da carne e não no fato de ser PF ou self-service). Agradecemos a comida. Comida mineira em Minas Gerais. E haja comida mineira, que daqui até a Bahia é chão que não acaba mais…

E nem só chão, o céu não saiu um minuto de cima das nossas cabeças e jogava água sobre nós, reclamando a nossa presença, a nossa ousadia, de achar que Brasil é nosso quintal. Colocamos capa-de-chuva no corpo e na mochila, sacola de supermercado nos pés e passamos Borda da Mata, a cidade que “tece horizontes e borda o futuro”, é o que dizia a placa na entrada da cidade, vencendo cada gota de água em seu movimento que ia de encontro à velocidade da moto.

A chuva amenizou, a pista era de mão dupla. Três carros cruzaram conosco, um atrás do outro, o primeiro deu um sinal com o farol, não entendi por que apenas um carro deu sinal, pensei que estivesse reclamando do meu farol ligado. Logo à frente apareceu um lixão do tamanho do mundo e uma chuva, dessa vez, de urubus. O Neander pensou que o sinal seria então para tomarmos cuidado para não levarmos uma urubusada na cabeça.

Mais à frente o sinal fez sentido de fato, era mesmo para tomarmos cuidado com os urubus, mas só com dois, de farda marrom, a polícia mineira. Mandou parar, mandou partir. Estavam só urubusando mesmo. Procurando um lixo bom para continuarem existindo.

Pegamos a Fernão Dias em Pouso Alegre, vimos a chuva de frente, vimos a chuva quase de lado e comemoramos: “Vamos passar ao lado da chuva!”. Mas a chuva que não é besta nem nada, reclamando a nossa presença, a nossa ousadia, de achar que Brasil é nosso quintal, molhou mais um pouco a gente, dessa vez sutilmente, talvez porque a chuva só chova, não reclama e só molha asfalto porque o asfalto está lá, e só molha a gente e a gente sente porque a gente está viva. E se a gente está viva a gente vai para o Maranhão de moto e sente a chuva, e sente o resto. O Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro, falta o resto.

Paramos em Três Corações, na dúvida entre passar ou não a noite em São Tomé das Letras tomamos algumas cervejas e olhamos o mapa. O problema está no tamanho das coisas, pode-se ir ao nordeste de avião, Viagens Costa, lanche de presunto e queijo a bordo, um Club Social ou uma barra de cereal, passa-se lá uma semana, passeios prontos, itinerários que mostram como o Brasil é bonito, paga-se em dez ou doze vezes, para ficar ainda um ano lembrando como o Brasil é bonito mesmo. Ou pode-se ir ao nordeste de caminhão, de carro, de moto, de bicicleta, a pé. E a gente se relaciona com as coisas de acordo com a maneira como passamos por elas.

Nós estamos indo de moto.

Resolvemos dormir em São Tomé, acampar num buraco qualquer e de manhã, em vez de voltar para a Fernão Dias, seguiríamos em frente, por uma estrada de terra que vai até Cruzília. Mas a chuva que molha o asfalto porque ele está em cima da terra e molha a gente porque a gente está em cima do asfalto, caiu torrencial. As capas-de-chuva não deram conta, do céu caía águas e raios, do chão não se via nada e seguíamos em frente mesmo assim. Chegamos em São Tomé encharcados por dentro, por fora, mochila molhada, roupas, redes, sacos-de-dormir. Preferimos então um camping a um buraco qualquer, oito reais por pessoa a diária do camping, e recepção com licor de figo caseiro. Banho quente e um varalzinho improvisado. Pegamos o que estava menos molhado e barraca e fomos dormir, esquentando nossos corpos um no outro.



Introdução
fevereiro 11, 2010, 12:17 am
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Quando chamo a composição desta obra de estórias, com “e”, é a fim de que as pessoas possam ler cada capítulo como se fossem contos, sem se importarem com qualquer tipo de registro fiel, mas se deixando levar pela maneira como as estórias são contadas, uma maneira coloquial mesmo, como se reproduzisse o que vivemos em cada momento da viagem, e a fantasia foi tanta, tirando os horrores, e os causos se sucedendo um atrás do outro sem parar, que nos sentimos mesmo dentro desta obra, todo dia sentiamo-nos nas páginas de um livro que ainda seria escrito, e escrevíamos todos os dias, com medo de parar de existir.

Das fotos já não podemos dizer que não sejam um registro fiel, mas ilustram tão bem a fantasia, que podemos chamá-las simplesmente de fotos.

Dedico esta obra ao Marcel Portela e ao Thiago Seike, que cuidaram das minhas cachorras e das gatas enquanto eu e o Neander vivíamos 36 dias na estrada, e ao Aécio Mineiro, que fez os últimos reparos na moto, e de graça.

Cinthia C. Santos



De São Paulo ao Maranhão de moto, algumas estórias
fevereiro 4, 2010, 7:46 pm
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Saímos de Campinas dia 27 de dezembro de 2009.

Ela de olho na estrada, desviando de carros e caminhões dissimulados, ele reservando o olhar para o que sobrava depois da velocidade, do ódio, da contra-mão, do capacete, da garupa: uma foto.

Chegamos dia 31 de janeiro.

36 dias na estrada… dá até ressaca no final.


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